Quando a diversão vira doença
Redação DM
Publicado em 4 de fevereiro de 2022 às 14:00 | Atualizado há 4 anos
Jogar videogame parece inofensivo, mas pode se transformar em vício para algumas pessoas. Intensificado pela pandemia, a dependência eletrônica pode estar mais próxima do que é discutida pela sociedade. De acordo com especialistas, muitas vezes o problema pode ser apenas a ponta do iceberg para outras condições psicológicas.
Uma matéria da BBC News mostrou que uma clínica do serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) é um dos poucos locais especializados no tratamento de dependentes de vídeo games no mundo. A reportagem, contou histórias de alguns pacientes da clínica, como Alex, que joga Counter-Strike compulsivamente.
“Para nós, como casal e como família, tem sido um desafio, pois é muito difícil ter interação fora de casa. E, sempre que há alguém nos visitando, ele fica no quarto jogando o tempo todo, gritando e xingando. Dormir, para nós, tem sido um enorme problema e muitas vezes dormimos em quartos separados. Preciso ligar um ventilador para abafar o barulho do jogo”, acrescenta ele.
Em Goiás, de acordo com o vice-presidente da Associação Psiquiátrica de Goiás, Tiago Oliveira, não existe um local especializado para esse tipo de tratamento. “Em geral, são tratados nos consultórios e em clínicas que fazem tratamento de dependência e transtornos relacionados a comportamento aditivos”, esclarece.
De acordo com a psicóloga Jéssika Rodrigues, que atende pacientes com este tipo de problema, na maioria dos casos, o tratamento com abordagem cognitivo comportamental, que ajuda a mudar o comportamento da pessoa pode ajudar.
“O que observo é que nunca é só um problema de dependência de jogos eletrônicos, vai além disso, a dependência é só o que se vê, a ponta iceberg. Mas quando vamos investigar é mais que isso. Tenho uma paciente que sofreu bullying que está depressiva, pais em divórcio, tem baixa autoestima”, explica.
Pandemia
De acordo com a psicóloga Jéssika Rodrigues, o uso exagerado dos jogos é um problema antigo, que veio com o maior acesso das pessoas à tecnologia, já que muitos games podem ser baixados gratuitamente até pelo celular. Porém, ela explica que a pandemia e, consequentemente, as doenças emocionais, agravaram o uso exagerado dos jogos eletrônicos.
“Assim está atingindo não apenas os adolescentes, como outras faixas-etárias. A dificuldade na interação social fez as pessoas se aproximarem dos games, já que em muitos jogos pode-se conversar com outras pessoas, o que é muito atrativo”, explica.
Equilíbrio
Para Jéssika, a diversão vira doença quando não existe equilíbrio. “Quando deixo de socializar e fazer outras coisas por causa do jogo”. E isso é também endossado pela OMS, que define a condição de transtorno dos jogos eletrônicos por características, como: perda de controle durante o jogo, priorização dos jogos sobre outros interesses e intensificação dos jogos, mesmo com consequências negativas.
Para que o entretenimento dos jogos possa continuar, moderação é o único remédio. “Se houvesse equilíbrio não haveria problemas, porque os jogos não causam prejuízos. Agora, quando a pessoa deixa de se alimentar, fazer suas necessidades fisiológicas, não pratica atividades físicas, aí já vira problema que tem de ser tratado”.