“Serei candidato a senador pela base aliada”
Redação DM
Publicado em 12 de abril de 2018 às 01:20 | Atualizado há 8 anos
O procurador de Justiça Demóstenes Torres (PTB) avaliou a decisão liberando-o para disputar as eleições deste ano. Demóstenes pretende se candidatar a senador e retomar a sua história e o seu trabalho por Goiás.
Após nove decisões em diferentes instâncias o absolvendo, Demóstenes afirma que as provas de sua inocência já estavam disponíveis em 2012, quando foi cassado, mas que não foi ouvido. Entre elas, estão perícias realizadas nos grampos ilegais apontando edições nos áudios: Joel Ribeiro, considerado o melhor perito forense do Brasil, encontrou fraudes em todos os trechos que analisou.
Primeira grande vítima brasileira das fake news, Demóstenes teve a honra atingida pelo vazamento gota a gota dos áudios fraudados. Como o Diário da Manhã noticiou, mesmo gravando 500 mil horas de conversas, as autoridades não encontraram provas para incriminar Demóstenes. Por isso, ele foi absolvido em todas as instâncias (Justiça Federal, Tribunal de Justiça de Goiás e Supremo Tribunal Federal), sempre por unanimidade.
Como houve usurpação de competência do STF, as gravações ilegais foram anuladas. Houve julgamento do mérito do conteúdo – e nada comprometia Demóstenes. Foi essa história que ele lembrou aos jornalistas Rubens Salomão, Vassil Oliveira e Cileide Alves, participantes do programa Manhã Sagres, da rádio Sagres/730.
ELITON
Ex-senador Demóstenes Torres também avaliou que o vice-governador José Eliton terá a oportunidade de mostrar a sua marca na administração a partir do momento em que assumir o governo e que essa demonstração de personalidade vai alavancar seus índices nas pesquisas. Recomendou a Eliton que defenda o legado do Tempo Novo em Goiás, considerado bom em sua avaliação, com iniciativas aplaudidas nacionalmente como a criação da Bolsa Universitária e da Universidade Estadual (UEG). Demóstenes destacou a importância de que os grupos políticos apresentem propostas para a sociedade.
TRECHOS DA ENTREVISTA
Procurador, qual a avaliação que o senhor faz sobre a liminar? É, na visão do senhor, uma liberação de fato para a candidatura ou o senhor irá aguardar o julgamento do mérito pelo Supremo?
—É uma liminar satisfatória. Ela simplesmente atendeu o que eu pedi. Então, tenho toda tranquilidade de que ela será mantida.
A liminar deve entrar na pauta da segunda turma do STF na próxima semana. O senhor acha que essa visão do ministro Dias Toffoli será seguida pela 2ª Turma?
—Acredito. Até em uma situação muito mais grave, que foi, por exemplo, o da presidente Dilma, que era uma imposição constitucional, um dos membros dessa turma suspendeu o efeito que era casado dentro do mesmo artigo. Veja que no meu caso é por conta de uma lei que eu mesmo relatei: a Lei da Ficha Limpa. Então, é pacífico esse entendimento. E lembrando que foi essa mesma turma, por unanimidade, por duas vezes com essa composição, que me deu todas as decisões favoráveis.
A decisão [liberando Demóstenes para ser candidato] questiona a decisão do Senado que o cassou. Ao suspender os efeitos da decisão, de alguma forma ele está questionando o mérito. Ainda assim, o STF decidiu que as casas legislativas têm autonomia para tomar decisões a respeito dos seus membros. Não seria o caso do senhor, que o Senado tem autonomia para fazer uma cassação que é muito mais política do que jurídica?
—Tem autonomia, mas não pode cometer arbitrariedades. E a autonomia é relativa. O Supremo já decidiu várias vezes que as instituições são relativamente independentes. Então, uma condenação penal não pode ser tão diferente de uma condenação civil, que não pode ser tão diferente de uma condenação administrativa. No meu caso, o processo por quebra de decoro parlamentar, o STF já decidiu por unanimidade que a ele se aplicam todas as regras do processo judicial. Então, não tenho dúvidas de que a decisão será mantida.
O senhor já se considera candidato?
—Vou lutar para ser candidato. Juridicamente, posso ser candidato; agora, politicamente, é uma decisão que a base aliada precisa tomar.
O que o senhor está fazendo para ser candidato? O senhor vai enfrentar a candidatura da senadora Lúcia Vânia na base aliada?
—Estou conversando com todas as lideranças, como os presidentes de partidos, buscando apoio. Respeito muito a senadora Lúcia Vânia. Acho que critérios devem ser estabelecidos e respeito qualquer critério e cumpro.
O senhor tem conversas com o vice-governador José Eliton sobre integrar a chapa?
—Eu converso há muito tempo com todos os membros que decidem dentro dessa coligação.
E com o seu partido, o PTB?
—Sem dúvidas. O PTB inclusive deve fazer um evento para afirmar a minha pré-candidatura ao Senado.
Essa pré-candidatura vai criar transtornos nas articulações que estão sendo feitas. Uma delas é o possível confronto com os interesses da senadora Lúcia Vânia. Como é que o senhor avalia que isso possa ser resolvido na base?
—Isso não é transtorno. Se existe gente interessada é porque a base é forte. Por exemplo, vários poderiam procurar outras coligações. Sempre foi assim. Quando fui candidato pela primeira vez [nas eleições de 2002, quando começou com 0,6% e terminou em primeiro lugar, à frente de Lúcia e Iris Rezende], em 2001 o candidato era o Vilmar Rocha, em 2002 antes de mim era o Henrique Meirelles, depois eu ainda disputei uma convenção com o Jalles Fontoura. Isso é normal. Estabeleçam os critérios e a gente vê quem pode ser o candidato.
Qual o critério que o senhor acredita que favorece a sua candidatura?
—As pesquisas qualitativas e quantitativas por vários institutos, no mês de julho, são uma boa alternativa.
O senhor foi realmente vitorioso na ação do STF, mas na parte processual. O senhor conseguiu provar que as gravações precisariam de anuência do STF, o que não ocorreu. Não houve julgamento do mérito do seu caso, sim?
—Essa versão é irreal. Fui vencedor em oito ações. Ontem [na terça-feira, 27] foi a nona decisão em meu favor. Não perdi nenhuma. Inclusive, repito, o MP fez uma perícia porque a principal acusação que havia contra mim era de lavagem de dinheiro, de pertencer a uma organização criminosa, e o Ministério Público fez uma perícia e pediu o arquivamento no mérito. Então não houve uma decisão só tornando as gravações inválidas. São várias decisões no mérito me inocentando. Veja que hoje aqueles que me derrubaram, o que na minha opinião foi um complô com participação do ex-presidente Lula, da ex-presidente Dilma, de meus desafetos no Senado, o PT de uma forma especial, todos eles estão em dificuldades e eu, não. Sofri naquela ocasião uma acusação sozinho. Esses aí foram acusados de desviar dinheiro público. Nunca fui nem sequer acusado de desviar o dinheiro de uma ponte, de um hospital, de lugar nenhum. Então, tenho toda tranquilidade para voltar de cabeça erguida e apresentar minha candidatura para a população. E a população, devidamente informada, vai decidir.
O senhor ao longo dessa história toda nunca negou que era amigo do Carlos Cachoeira nem negou o que todo mundo ouviu nos áudios gravados pela Polícia Federal. O senhor agora nega, não disse o que estava na gravação?
—Eu disse que aquela voz era minha, mas existem muitas edições, muita coisa absolutamente errada, truncada, mentirosa e falsa. Isso está constatado desde 2012, não é novidade. Alguém quis ouvir o que eu disse em 2012? Então, tenho que repetir agora. Está no site do Senado. Basta abrir o discurso que eu fiz, abrir as perícias que se encontram dentro do processo no Conselho de Ética que vai verificar que não existe novidade alguma. Só que naquele momento ninguém queria ouvir, queriam que eu perdesse a cabeça e foi realmente o que aconteceu.
O grupo está desgastado?
—Óbvio. Quem não fica desgastado após 20 anos no poder? Agora, cabe ao grupo provar que tem condição de mudar para melhor. Ninguém quer mudar para pior. A alternância, inclusive, é a regra, é uma exceção ter tanto período de governo. Mas eu acredito firmemente, como o Estado de Goiás foi transformado em todas as áreas e transformado para melhor, eu acredito que o grupo tem condição de reverter esse desgaste e promover a eleição do Zé Eliton. Agora, o PTB tem autonomia para decidir o que vai fazer e eu respeito o que o partido decidir.
O que o partido decidir o senhor acompanha? Porque o partido tem conversas com o MDB, por exemplo…
—O partido conversa com todo mundo, mas creio firmemente que a tendência natural é continuar com a base.
O senhor falou que o grupo está desgastado. Como corrigir esse desgaste em tão pouco tempo e manter a candidatura de José Eliton?
—Marconi já cumpriu sua missão, tem quatro mandatos, ajudou a transformar o Estado de Goiás. Então, o principal desafio do José Eliton é, ao assumir o governo, mostrar a sua personalidade, a sua cara. O Marconi vai continuar o seu grande trabalho no Senado, com certeza. Agora, o José Eliton tem que mostrar que tem personalidade, que não é uma continuidade do Marconi. Isso não quer dizer que vai trair o Marconi, ou que vai fazer uma coisa contrária nada disso: vai aproveitar as coisas boas que foram feitas, e foram muitas, e transformar isso em uma plataforma que mostre também o que ele pensa para o futuro, o que vai fazer pelo Estado e como vai transformar novamente o Estado, para que possamos acreditar que seja um grande governador.
O governador Marconi Perillo disse que José Eliton deve defender o legado do governo dele. Como o José Eliton vai defender o legado e conseguir separar o que é desgaste em uma campanha eleitoral?
–José Eliton tem que defender o legado do Tempo Novo, até porque esse legado é muito bom. Ele não tem como se desvencilhar da Bolsa Universitária; dos programas de conservação de rodovias; do programa de segurança pública feito com integração de policias e de órgãos de inteligência; o que foi feito na criação da Universidade Estadual de Goiás. Agora, o que o eleitor quer saber é: o que ele vai fazer para o futuro. Defendo isso também. Além de defender o legado, o nosso querido futuro governador José Eliton tem que apresentar as suas propostas para mostrar o que o diferencia e por que ele deve ser o governador, pois os demais candidatos só estão dizendo que são diferentes, não vi nenhuma proposta de nenhum para mudar o padrão do governança do estado de Goiás, mostrando o que Goiás pode mudar para o futuro. Então, essa via está totalmente aberta, nenhum dos candidatos está apresentando qualquer tipo de proposta. O eleitor quer saber sobre o futuro. Então, por exemplo, se faz pesquisa no Brasil e o Lula ameaçado de prisão, e é preciso dizer aqui, eu acho que o Lula participou desse complô para me derrubar –chega a ter 48% das intenções de voto. Vivemos um momento de desgaste tão grande, tão absoluto, que o eleitor está procurando saber quem faz, quem fez alguma coisa e quem pode fazer. Isso vale para os demais candidatos: têm que começar a apresentar propostas. Quais são as propostas dos outros grupos? É só mudar? E se for mudar parapior? O eleitor tem que avaliar, dentro de condições objetivas, porque tem gente que promete tudo. Em uma hora dessas fala qualquer coisa e para cumprir depois?
José Eliton precisa mostrar personalidade própria, o jeito dele de governar, mas… e se não der certo? Sob pena de não ser o candidato da base ou sob pena de perder a eleição?
—O José Eliton é o candidato. Ele vai sentar à mesa de governador e terá seis meses para mostrar quem é. Não há dúvida na base de que ele será candidato. Só quem não participa dessas conversas, dessas articulações políticas, é que tem alguma dúvida de que José Eliton será candidato. Será candidato e acredito que no momento em que ele sentar [na cadeira de governador] e mostrar personalidade, mostrar ao eleitor quem é, vai crescer na aprovação. Hoje, ele é tido como alguém que o governador Marconi manipula. Ninguém gosta de candidato manipulado, ninguém gosta de quem não tem opinião própria. Estamos conversando, cada qual tem sua opinião, cada qual tem a sua versão, mas a gente tem que ter personalidade. É isso que quem está nos ouvindo aprecia. Vou falar como se fosse o Marconi, como se eu fosse a Lúcia Vânia? Não, eu sou o Demóstenes, com qualidades e defeitos. Esse José Eliton é que tem que aparecer. Por enquanto, o José Eliton está escondido atrás do Marconi, e tem que aparecer. Tem que defender o legado, óbvio, como não defende um grupo que ficou 20 anos no poder e fez um bem enorme para a sociedade? Agora, a sociedade está ansiando por mudanças, que pode ser o próprio José Eliton ou pode ser outro. Depende, fundamentalmente, do José Eliton.
Marconi já cumpriu sua missão, tem quatro mandatos, ajudou a transformar o Estado de Goiás. Então, o principal desafio do José Eliton é, ao assumir o governo, mostrar a sua personalidade, a sua cara”
Nunca fui nem sequer acusado de desviar o dinheiro de uma ponte, de um hospital, de lugar nenhum. Então, tenho toda tranquilidade para voltar de cabeça erguida e apresentar minha candidatura”