Escassez global de professores ameaça metas de educação até 2030, inclusive no Brasil
Léo Carvalho
Publicado em 18 de novembro de 2025 às 14:52 | Atualizado há 8 meses
Garantir educação de qualidade para todos até 2030 é um dos compromissos centrais da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas um alerta recente da Unesco mostra que a meta corre sério risco de não ser cumprida. O motivo é direto e preocupante. Faltam professores.
Segundo o relatório mais atualizado da organização, publicado em julho de 2025, o mundo precisará contratar mais de 44 milhões de novos docentes apenas para atender a educação básica nos próximos anos. A comparação ajuda a entender a dimensão do desafio. É como se toda a população da Argentina fosse deslocada para dar aulas nos sistemas educacionais do planeta.
O estudo também chama atenção para outro dado grave. Cerca de 251 milhões de crianças e adolescentes continuam fora da escola. Sem profissionais suficientes, as redes de ensino ficam sobrecarregadas, com turmas lotadas, piora na aprendizagem e aumento da evasão.
Crise segregada
A falta de professores, porém, não atinge todas as regiões da mesma forma. O maior déficit está no ensino secundário, responsável por 70% da demanda global. A situação mais crítica é a da África Subsaariana, que precisará de 15 milhões de novos docentes até o fim da década. Na América Latina e Caribe, a necessidade é de 3,2 milhões de profissionais, grande parte para substituir quem abandona a carreira em razão de baixos salários, carga de trabalho excessiva e falta de reconhecimento.
A própria Unesco aponta que até 40% dos docentes deixam a profissão nos primeiros cinco anos. Entre as causas mais comuns estão remuneração inferior às de carreiras de nível equivalente, falta de materiais básicos, salas superlotadas e políticas de contratação emergencial de profissionais sem a formação adequada. O relatório também destaca desigualdades de gênero. Homens são minoria na educação infantil e mulheres continuam sub-representadas em áreas de STEM e em cargos de liderança.
Para enfrentar o problema, a Unesco lançou a Estratégia Regional Docente 2025 a 2030 durante fórum realizado em Santiago no Chile. O plano prevê fortalecer políticas públicas, ampliar a formação inicial e continuada, estimular cooperação entre países e criar um Fundo Global para Salários de Professores. A recomendação é clara. Nenhum país conseguirá oferecer educação de qualidade sem valorizar a carreira docente.
Brasil sem educação
No Brasil, o risco também preocupa. Um estudo do Instituto Semesp projeta que o país pode enfrentar um déficit de 235 mil professores da educação básica até 2040. O desinteresse dos jovens pelas licenciaturas, o envelhecimento do quadro docente, os altos índices de evasão universitária e a baixa valorização salarial compõem o cenário que empurra muitos estudantes e profissionais para fora da carreira.
A Unesco sugere caminhos para frear essa crise. Entre eles estão políticas integradas de valorização, uso de dados para planejar a mobilidade de professores, formação continuada colaborativa, melhoria das condições de trabalho e investimento mínimo de 6% do PIB em educação. Também reforça a importância da cooperação internacional para garantir apoio técnico e financeiro.
O recado final do relatório é direto. Professores são essenciais para liberar o potencial de cada estudante. Sem eles, a educação não avança e o desenvolvimento sustentável não acontece. Investir na docência é investir no futuro.