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‘O Agente Secreto’ pisca para o Oscar com Globo de Ouro, mas disputa será acirrada

Redação

Publicado em 9 de dezembro de 2025 às 15:43 | Atualizado há 6 meses

Wagner Moura protagoniza filme do momento no Brasil
Wagner Moura protagoniza filme do momento no Brasil

Marcus Vinícius Beck

Com três indicações ao Globo de Ouro, “O Agente Secreto” subiu um degrau importante nesta temporada de premiações. É quase sempre assim: quem ganha a estatueta dourada torna-se nome provável para o Oscar, cuja 98ª edição ocorrerá em 15 de março de 2026. 

“O Agente Secreto” foi indicado a melhor filme em língua estrangeira, a melhor drama —feito inédito ao cinema brasileiro — e melhor ator para Wagner Moura. A cerimônia de premiação acontecerá em 11 de janeiro, no hotel Beverly Hilton, em Los Angeles (EUA).

As indicações, divulgadas nesta segunda-feira (8/12), alegraram o diretor Kleber Mendonça Filho. “Não sabia que as três indicações no Globo de Ouro são recorde brasileiro”, tuitou o pernambucano. “Obrigado pelas mensagens todas, o celular parece uma árvore de natal.”

Como disse o jornalista e professor Eugênio Bucci, “O Agente Secreto” secreta a gente. “Entre outros acertos, o longa-metragem de quase três horas de duração tem a virtude estética e ética de não ter feito concessões de formato”, assinala o docente da ECA-USP. 

“O Agente Secreto” concorre a três indicações no Globo de Ouro – Foto: Divulgação

Estamos no posto de gasolina. O sol não dá indícios de que arrefecerá por aqui. Na bomba, o Fusca amarelo é abastecido. O condutor, misterioso e melancólico, com camisa azul e branca na estica, manga curta, sandália de couro e calça jeans, fala ao frentista: “Pode completar.”

À frente, embaixo de um papelão, vê um defunto de pernas abertas, ladeado por moscas carniceiras e cães de rua. “Ficou assim nos últimos dias”, disse-lhe o funcionário encalorado. De repente, a Brasília da PRF chega e estaciona no agreste. Descem dois homens da lei. 

Pirracentos, os agentes. Nem tchum pros corpos. Um deles, o sargento, caminha até o Fusca suprido de combustível. Solicita ao motorista a habilitação e embirra. Xereta o extintor. Tudo certo. Informa que entrará no carro para bisbilhotar sabe-se lá o quê. Surrupia um cigarro. 

Você descobre, lá pelas tantas, que o professor Marcelo/Armando (Wagner Moura) está jurado de morte. A ex-mulher, mãe de seu filho, morreu: mataram-na? Bem, não temos essa resposta — ao que tudo indica (reflita por um ou dois segundos) assassinaram-na.  

Spoiler

Eis o inevitável, leitor: spoiler. No jornal O Estado de S.Paulo, ao longo do artigo ao qual me baseio nesta humilde peça, Bucci salienta: “O protagonista será apoiado por uma senhora rica que pretende salvar-lhe a pele. De onde surgiu a benfeitora? Também não importa.”

Sugere: “vá ao cinema.” E emenda: “Você vai ver um Pernambuco como não imaginava ser possível, durante um horror difícil de conceber, numa obra sem paralelos, que desconcerta, desnorteia, encanta e sintetiza o que fomos e ainda somos.” Sim, amigo, ouça o professor. 

Ou, se preferir, ouça a atriz Juliette Binoche — presidente do júri do Festival de Cannes de 2025. Ela, apaixonada por “O Agente Secreto”, queria dar um prêmio mais robusto ao longa. Ainda assim, Kleber Mendonça e Wagner Moura venceram direção e ator em Cannes.  

Marcelo chega a Recife. De cara, depara-se com uma atmosfera de suspense autoritário.  Quase quarentão, especializado em tecnologia, o protagonista volta à capital pernambucana atrás de refúgio: um empresário inescrupuloso do Sul ligado à ditadura deseja vê-lo morto. 

“Ele quer viver segundo os seus valores, e isso é suficiente para que sua vida seja posta em perigo, como ocorre no mundo de hoje com quem tem o mesmo destino por causa da cor da pele, sua religião, ideias políticas e orientação sexual”, diz Moura ao Los Angeles Times.

No rock “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, gravado em 1994, o mangueboy Chico Science e sua Nação Zumbi cantam: “Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha/ Não tinha medo da perna cabeluda.” Trata-se, isso sim, de lenda urbana de autoria incerta. 

Gilberto Freyre, em “Assombrações do Recife Velho”, explica: essas histórias, ainda que macabras e populares, preservam a tradição oral da cidade assustadora. Agora, pense na ditadura — seria mesmo sandice uma perna encontrada na barriga de um tubarão?

Lembre-se: estamos em 1977. Os jornais, sob censura, publicavam histórias absurdas. Mais do que isso, os textos davam conta do ruído daqueles tempos. A imprensa, durante “O Agente Secreto”, vira um personagem que, a todo o momento, enfatiza a violência da época.

Pela capital pernambucana, havia uma Perna Cabeluda. Açoitava homossexuais que se beijavam — imagine se algo assim é tolerável para a família brasileira. O surrealismo, ensinou André Breton, descoordena a razão porque a realidade em si tende a oprimi-la.

Recife afoga-se na repressão. Nas repartições, os amigos do regime ocupavam cargos comissionados. Os agentes da lei, por sua vez, defendiam a elite e, à noite, sequestravam e matavam — daí a tal perna encontrada na barriga de um tubarão. Eram tempos arbitrários.

Enquanto se barbarizava, clássicos do cinema estavam em cartaz no cinema São Luis: “Tubarão”, de Steven Spielberg, e “Agente Secreto”, uma sátira (lembremos do título) ao cinema de espionagem. Jean-Paul Belmondo, galã da nouvelle vague, atua na galhofa.

À imprensa norte-americana, Wagner Moura diferencia os filmes “Marighella”, sobre o guerrilheiro Carlos Marighella (do qual é diretor), e “O Agente Secreto”, que enfoca as “pessoas comuns afetadas por um regime ditatorial”: “Terminam pagando um preço alto.” 

Que ele se prepare: não será fácil no Globo de Ouro. Mas Wagner está muito bem, obrigado.


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