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“O cinema dos anos 1970 está instalado em mim”, diz cineasta Kleber Mendonça Filho

Redação Online

Publicado em 7 de novembro de 2025 às 18:02 | Atualizado há 8 meses

Diretor pernambucano faz revisão cinematográfica e histórica em filme brasileiro elogiado lá fora - Foto: Deivisson Carvalho
Diretor pernambucano faz revisão cinematográfica e histórica em filme brasileiro elogiado lá fora - Foto: Deivisson Carvalho

Marcus Vinícius Beck

Às dez e meia, onze da manhã, Kleber Mendonça Filho irrompeu na sala virtual. Sereno, fala compassada, revelou-se satisfeito com o retorno do Brasil a Cannes. Durante a 75ª edição do festival, em 2022, o país não estivera na seleção final. “Retratos Fantasmas” era a esperança.

A poucas horas, Mendonça Filho viajaria para a Riviera Francesa. Mostraria ali seu doc e, quem sabe, viabilizaria apoio financeiro para o seu próximo projeto ficcional: “O Agente Secreto”. Na imprensa, dizia-se que Wagner Moura estrelaria a película. Seria possível?

Lá foi Mendonça Filho: ideias provocadas. Para a jornalista Manohla Dargis, do New York Times, o brasileiro baseou-se em fatos e ficção ao tecer seus “Retratos Fantasmas”. Já Didier Péron, no francês Libération, viu no doc uma abordagem nostálgica sobre as transformações do Recife.

“Retratos Fantasmas” promove reflexões sobre memória no espaço urbano – Foto: Divulgação

Nos primeiros 30 minutos, o cineasta mostra o apartamento de sua infância. A cidade, em seguida, torna-se protagonista. Sai pela capital pernambucana e revela suas mudanças, reminiscências. De quebra, pensa nas transformações urbanas inerentes às metrópoles.

Foi numa dessas caminhadas que encontrou espaços apaixonantes, hoje em desuso absoluto — como os cinemas de rua. Muitos até se tornaram templos neopentecostais, aliás. Por isso, o diretor pinça neste filme um retrato dos fantasmas afetivos achados na vida citadina.

No notebook, o repórter lembra: “A sociedade adoeceu. Manifesta sintomas de amnésia social. De uns tempos para cá, deu até pra relativizar a ditadura.” Mendonça Filho concorda e, sem pressa, conta que ambientou “O Agente Secreto” em 1977 a partir de suas memórias.

Nascido em 1968, Mendonça Filho era menino naquele tempo: contava nove anos. Suas recordações são vagas. Ainda assim, afirma, o que traz consigo é “muito forte”. “Eu acho que é um pouco como ‘Retratos Fantasmas’”, compara o cineasta recifense.

Mendonça Filho explica que “O Agente Secreto” faz revisão pessoal: “Mas ela não é dona de nenhuma verdade, embora eu achasse que, com a base de lembrança pessoal que eu tenho, com a memória que tenho do meu pai e da minha mãe, da compreensão daquela época e das pesquisas que eu fiz, talvez o filme — que é um thriller — se torne um suspense.”

Além disso, pontua o diretor pernambucano, o cinema produzido há quase 50 anos era interessante. Movimentos de vanguarda não marcaram apenas a história do audiovisual brasileiro, mas espalharam ideias na linha da arte das imagens em movimento.

“Confesso: eu estou curioso e é um filme que eu quero muito ver”, disse Mendonça Filho a este escriba, em 2023, durante a entrevista descrita na abertura desta reportagem. “É uma obra que deve ter um elenco grande. Estou querendo fazê-la. Fui criança nos anos 70, adolescente nos anos 80. O cinema dessa época, portanto, está instalado dentro de mim.”

Diante dos arapongas e da insegurança, o misterioso Marcelo (Wagner Moura) busca reconectar-se com seu filho. Dirige um Fusca amarelo e, ao parar num posto à beira da estrada, avista um corpo — ficou assim nos últimos dias, informa-lhe um funcionário.

Em 1977, Recife tinha então uma atmosfera de suspense. Personagens mitológicos povoavam o imaginário coletivo da cidade. O mais famoso era Perna Cabeluda, criação do jornalista Raimundo Carrero, ex-colunista do Diário de Pernambuco. Lembre-se: existia censura.

Logo, raciocine por dois segundos: por que essas lendas seriam inventadas? Sim, a censura mandava tesourar, ou às vezes jogar fora, notícias que considerava impróprias. Daí, então, mentes criativas ficcionalizavam e, claro, investiam no absurdo. Com isso, vendia-se jornal.

Sobre “O Agente Secreto”, Kleber Mendonça Filho diz esperar que o filme seja interessante e tenso para quem for vê-lo nos cinemas. “E seja também uma obra que traga um sabor histórico muito correto sobre o Brasil daquela época”, explanou o cineasta pernambucano.

Wagner Moura como Marcelo: “O Agente Secreto” tem salto temporal – Foto: Cinema Scopio

O tempo salta na narrativa – vai de 1977 até os dias de hoje. No presente, pesquisadores examinam fitas cassetes com conversas dos personagens pretéritos. Querem compreender o paradeiro de Marcelo. Ele os intrigou, pois chegara a Recife durante a folia carnavalesca.

“O cinema e a televisão começam a revistar uma ideia do passado, e o passado começa a ficar cada vez mais distante e borrado”, reflete Mendonça Filho, autor do roteiro de “O Agente Secreto”. “Me interesso muito por uma revisão que venha do coração e de uma compreensão que eu entenderia como correta do nosso país há quase 50 anos.”

Pela editora Record, o cineasta lança “O Agente Secreto — Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho”. A publicação tem posfácio assinado por Wagner Moura. Ao defender a obra, o autor diz nas redes sociais tratar-se de um roteiro capaz de apresentar esse gênero textual como “livre”.

“Pode ter um tom novelístico, livre e sugestivo sobre o filme que poderá ser. De fato, foi o roteiro de ‘O Agente Secreto’ que viabilizou o filme que existe hoje”, escreve, desejando ter seu livro descoberto por estudantes. Algo assim se passou com os roteiros de “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, em publicação lançada pela Cia. das Letras há quatro anos.

Editora Record publica livro com roteiro de filme que irá representar o Brasil no Oscar – Foto: Divulgação

Em coletiva, Wagner Moura analisou: “A memória é importante, porque, se a gente não tivesse, por exemplo, a Lei da Anistia, que foi uma lei que apagou a memória do Brasil, a gente não teria tido o presidente que a gente teve, esse que foi condenado [Jair Bolsonaro].”

Segundo o ator, festejado pela sua atuação em “O Agente Secreto”, a memória se revela importante não só para a cultura e o cinema, “mas o jornalismo, a universidade, a sociedade como um todo têm a função de preservar a nossa memória para que cresçamos como país”.

Na quinta-feira, 6, Kleber Mendonça Filho pediu aos operadores de projeção para que exibissem o filme “no último volume”. “Assim”, justificou, “terão os melhores resultados junto ao público e estaremos mais próximos do trabalho feito durante meses de mixagem sonora”.

Representante brasileiro no Oscar de Melhor Filme Internacional, “O Agente Secreto” tem tudo para repetir o sucesso de “Ainda Estou Aqui”, que viu Fernanda Torres ganhar Melhor Atriz em Filme Dramático no Globo de Ouro. Além disso, o longa de Walter Salles trouxe pra cá a inédita estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na principal premiação de Hollywoood. Aguardemos.


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