Eu não sou cachorro não: ‘O Agente Secreto’ desnuda o Brasil no Oscar
Redação
Publicado em 13 de março de 2026 às 21:18 | Atualizado há 3 meses
Wagner Moura fez a cabeça da crítica internacional - Foto: Victor Jucá
Ao contrário desses filmes imediatamente esquecíveis, “O Agente Secreto” começa num posto de gasolina, em Pernambuco, e termina (se é que termina)… bem, já veremos.
A fita, com sua polissemia, concorre neste domingo (15/3) ao Oscar em quatro categorias. Wagner Moura, essa entidade baiana, luta por melhor atuação do ano — como escreve o crítico Justin Chang, ele tem o molho e a “explosão de puro carisma de ídolo do cinema”.
Na revista “The New Yorker”, Chang decreta: vitória do longa brasileiro. “Melhor filme internacional”, sentencia. Mas Moura, diz, perderá a estatueta pra Michael B. Jordan, de “Pecadores”, cuja produção acumula 16 indicações. “Só que o brasileiro deveria vencer.”
Contém spoilers, alecrim dourado, pra citar o escritor Ronaldo Bressane. Se não aprecia, escorregue pro próximo parágrafo. Ou, por favor, corra pra Netflix e assista ao filme.
Ao som de “Eu Não Sou Cachorro Não”, de Waldick Soriano, Moura dirige seu Fusca amarelo-claro ano 1972, encostado ao lado da bomba de combustível enferrujada. O sol queima feito labareda. Algo o espanta: um corpo estendido a 10 metros de distância.
O sangue no chão indica cabeça estourada, dois tiros. Ou seriam três? Moura põe a mão na boca: “Puta merda… E a polícia?” O frentista, de óculos, afirma: “Disseram que tava com ocorrência por causa do carnaval, falaram que até a quarta-feira de cinzas vinham pegar.”

Autoridades
Pela rodovia, uma matilha de cinco cães se aproxima. O homem suado tenta expulsá-los, atirando pedrinhas. “Sai!… De novo… oxe”, repele. Moura olha pro defunto ao deus-dará. Estamos em fevereiro de 1977. É tempo de pirraça, bizarrice e, principalmente, ditadura.
Corta pra Belina amarelo e azul da PRF. Você intui que o personagem — quem é esse cara? — tem um passado misterioso quando testemunha seu incômodo ao ser abordado por uma dupla de policiais. Um dos agentes lhe pede um cobre — sem grana, Moura lhes dá cigarros.
Está tudo aqui: a avacalhação institucional, a corrupção deliberada, o morto estendido. Ninguém vai tirá-lo? Não. Soriano solta a voz: “Tu não sabes compreender quem te ama, quem te adora.” E ainda sopra: “tu só sabes maltratar-me e é por isso que eu vou embora”.
Tanque abastecido, Moura pega a estrada de novo. Os foliões andam à beira da rodovia — com fantasias grotescas, cômicas, que reaparecerão de maneira sinistra mais à frente. É uma obra que tem tato, dispensa a pressa, desenvolvendo-se entre eclipses e em ritmo de frevo.
Que maluquice é essa: um tubarão em uma sala de aula? Pois é. Foi parar ali porque o encontraram com uma perna humana dentro da boca. Esta perna vai voltar, daqui a pouco, como Perna Cabeluda — lenda urbana que aterrorizou moradores do Recife nos anos 1970.
Montagem desvela signos que caracterizam ditadura

Logo notamos os signos desvelados. Por exemplo, em certa cena, conhecemos Sebastiana, senhora de 77 anos interpretada pela fabulosa Tânia Maria. Ela é proprietária de uma pensão que, veremos adiante, recebe perseguidos políticos — morou na Itália, conheceu comunistas, anarquistas. A película acena pro passado, encara o presente e, sobretudo, pisca pro futuro.
Como escreveu o crítico Luiz Carlos Merten, Kleber Mendonça Filho filma grandes cenas que, desde logo, devem ser inseridas em uma antologia do cinema brasileiro — o posto de gasolina, o carnaval de rua, a discussão no restaurante, o bang-bang por Recife, a orgia momesca. Possui ainda outra desconcertante — o gato frajola (absurdo) de duas cabeças.
Você sente-se — como assim? — provocado. Lembremos, pois, do olho extirpado por Luis Buñuel e Salvador Dalí no curta “Um Cão Andaluz”, de 1929: angustiante. Você sente-se — como assim? — assustado diante do felino mutante. É instado a virar o rosto pro lado.
Pela direção de arte, figurino e trilha, percebidas no início, já se constata o eixo de “O Agente Secreto”, caríssimo Ronaldo Bressane: convergência de três gêneros cinematográficos — o documental, o político e o terror. “Sagaz, o filme demora pra nos contar quem é ele”, diz.
O fato de a história ter saltos temporais, gerando assim uma narrativa pretérita e presente, coloca em Moura a pecha de indivíduo misterioso. No entanto, reflitamos, isso conversa com uma pauta estruturante na elogiável filmografia de Kleber Mendonça Filho — a memória.
Apenas no último terço descobrimos quem é o protagonista. Marcelo, quer dizer, Armando contrariou interesses – típicos do patrimonialismo brasileiro, segundo Raymundo Faoro — ligados à ditadura. Puseram sua cabeça a prêmio — a sua e a da esposa (Alice Carvalho).

Desfecho
Mataram-na. Se ninguém viu, como o fizeram? Sem condicionante: sim, ela bateu boca com o filho do sujeito endinheirado, sim, Mendonça Filho monta seu filme elipticamente. Logo… bem, não se tinha resposta para tudo naquele tempo. Coisas estranhas aconteciam. Armando não era de esquerda, militante, mas se meteu com poderosos. Esse é o motivo de sua fuga.
Quando o sabemos morto, ele já havia morrido duas vezes — primeiro na perspectiva física, depois aniquilam sua memória. Antes de ser encurralado por matadores de aluguel, acha-se com seu filho. Transa com Hermila Guedes, como Claudia, que é dentista. Ouve música pra dar um xô na maldita tristeza e, além de tudo, brinda os pesares junto a outros exilados.
Por certo, a vida continua. Sorriam, vamos sorrir, pra evocar aquela cena de “Ainda Estou Aqui”. Seguimos em 1977 — Ernesto Geisel se faz onipresente nas repartições públicas em um retrato na parede. Armando trabalha num desses locais. Tudo estranho, muito estranho.
Jornalista e crítico de cinema, Mendonça Filho realiza uma obra de arte cerebral. Tal e qual afirmou Merten, o cinema dele transpassa tal euforia: mistura gêneros, experimenta. “Pois é pós-godardiano”, diz. Se calhar, é por isso que cria películas exigentes mas populares.
Metafórica, elíptica, a fita mostra um certo jornalismo sensacionalista — caso da Perna Cabeluda. Trata-se de um absurdo inventado pelo escritor Raimundo Carrero. Sem pauta, o repórter deveria entregar ao seu editor uma matéria atrativa. Aí bolou uma história despirocada, citada na música “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, da Nação Zumbi.
Continuemos na toada do mangueboy Chico Science: “E quem era inocente hoje já virou bandido, pra poder comer um pedaço de pão todo fudido.” Na dúvida, fiquemos com “Critics at Large”, podcast da “The New Yorker” apresentado por Vinson Cunningham, Naomi Fry e Alexandra Schwartz: “O Agente Secreto” é o Brasil. O de ontem e o de hoje.