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Domingos Felix ganha coletânea que reúne textos inéditos

Redação Online

Publicado em 8 de abril de 2026 às 19:49 | Atualizado há 3 meses

Autor se destacou por exercer diferentes frentes da palavra - Foto: Acervo da Família
Autor se destacou por exercer diferentes frentes da palavra - Foto: Acervo da Família

Marcus Vinícius Beck

Advogado, professor, crítico literário, jornalista e contista, Domingos Felix de Souza tem textos inéditos reunidos na coletânea “Contos e Outros Escritos”, que acaba de ser lançada pela Editora UFG. A obra traz 20 narrativas do escritor, ex-colunista do Cinco de Março.

Os textos revelam o pensamento do autor, conhecido por ter apresentado um texto de Bernardo Élis a João Guimarães Rosa. Trata-se de um minucioso trabalho realizado pela equipe Elysium, que conduziu a organização e a edição dos manuscritos dominguianos.

Todo o processo foi chefiado pelo pesquisador Wolney Unes, diretor-técnico da Elysium Sociedade Cultural. Por meses, os profissionais se empenharam na tarefa de digitalizar e revisar o material literário. “Contos e Outros Escritos” chegou aos leitores em 2023.

O projeto começou quando se descobrira um conjunto de textos guardados no acervo de Domingos. A reunião do material foi feita pela escritora Maria Lúcia Felix Bufáiçal, filha do autor goiano, responsável por submeter o tesouro encontrado ao conselho editorial.

Como batia à máquina com “rapidez espantosa” — nas palavras da própria filha —, o escritor acumulava papéis na mesa sobre a qual trabalhava. “Vivia cheia deles”, conta. Ela, porém, não se lembra de vê-lo escrever outra coisa senão críticas, prefácios, orelhas de livros.

“Sempre tive convicção de que meu pai adorava viver só no meio de artistas, escrevendo, lendo”, relata a autora. “A casa vivia cheia de gente ligada à literatura, mas também de alguns pintores. Frei Nazareno Confaloni, por exemplo, sempre vinha à nossa casa.”

Outros escritos

Eis os “Contos e Outros Escritos”: a prova de que Domingos Felix era um maquinista dos sonhos, para evocar o poeta gaúcho Carlos Nejar. Para o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o goiano enfim sai do “injusto esquecimento” com o livro recém-editado.

No texto “O Maquinista dos Sonhos”, Nejar explica: “[Domingos] teve laborioso empenho clarificador e influente no Modernismo Literário em Goiás.” Era percuciente, mordaz. Ás vezes destilava ironia, ainda que não lhe faltassem bondade, paciência e humor fraterno.

Nascido em 23 de janeiro de 1923, em Jaraguá, Domingos Félix era o sétimo de nove irmãos. Cursou o antigo ginásio em Silvânia, tentou Filosofia em Cuiabá (não ficou muito tempo por lá) e Direito no Rio de Janeiro (este concluído), onde encontrou um cenário cultural agitado.

Na antiga capital federal, exercitou a capacidade narrativa por meio da crônica esportiva. E não em qualquer jornal, nada daquelas gazetas cariocas, mas sim num veículo que marcou a história da imprensa brasileira: a Última Hora, de Samuel Wainer. Era um jornal trabalhista.

Para Maria Lúcia Felix Bufáiçal, Domingos usava o futebol como um disfarce. “Eu tinha a impressão — sempre — de que tanto o futebol como o cinema e os livros que ele lia sem parar eram sua forma de fugir de uma angústia muito grande que não deixa transparecer.”

Na ficção, Domingos não se dedicou a temas cerratenses 

Obra revela virtuoso da linguagem em 20 contos inéditos – Foto: Divulgação

Leitor voraz, Domingos Felix se tornou quase um oráculo intelectual de Goiânia. Publicava ensaios na Revista Oeste e no Jornal Oió, em cujas publicações dissertava a respeito de livros que estavam a circular no estado. Muita gente o procurava, queria saber sua opinião.

Quando o publicaram à sua revelia, o escritor destruiu-se. Wolney Unes explica que o livro relegado é raríssimo: “Valioso mesmo.” Faltou um Max Brod, o amigo que desobedeceu Franz Kafka e não queimou as obras que marcariam a literatura durante o século 20.

Como ficcionista, Domingos não se dedicou a temas cerratenses. Pelo contrário, ressalta o pesquisador Wolney Unes, ele falava do amor, das paixões. Nos contos, uma criança toca um idoso, há uma cisma entre amigos, estrutura-se uma teoria crítica em forma de ficção.

“Completam seus temas traições, dinheiro, religião; só não há pequis, lobos ou esmeraldas”, observa Unes, lembrando que Domingos juntou as atividades de leitor e crítico e, além delas, as de criador. “Em ambos os casos, salta aos olhos o virtuosismo no trato com a linguagem.”

Sentimento

Se a maioria insistia em ficar restrita aos temas regionalistas, Domingos Felix se voltava ao sentimento. Wolney Unes afirma que o autor mais conhecido a fazer essa mudança foi o goiano José J. Veiga, colunista do Diário da Manhã e dono de uma prosa simples.

“E, para nossa surpresa, o Domingão, como Domingos era carinhosamente chamado por muitos. Isso torna as escritas ainda mais fantásticas. Ele não fala apenas das plantas e bichos de Goiás, ele fala da alma humana”, explica Unes, sublinhando sua influência intelectual.

No conto “O Doutor Tadeu”, Domingos Felix faz uma descrição leve e, ao mesmo tempo, meticulosa: “A fortuna sorrira ao bom moço, tendo-lhe deixado um tio solteirão toda a sua honrada e bem nutrida ‘bagagem’.” Era simples na vida e na arte, como a sua gente.

Morto aos 89 anos, em 2012, criou poesia nas veredas abertas pela Geração de 45, como diz Carlos Nejar. Na ficção, encaixa-se no modernismo de Aníbal Machado. Foi, além disso, homem de jornal — era a voz de seu tempo na crônica. Resta a leitura de seus textos.


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