Boogans celebra disco aclamado em lançamento da Atac, em Goiânia
Redação Online
Publicado em 8 de abril de 2026 às 19:54 | Atualizado há 3 meses
Boogarins marca cena do rock nacional com sonoridade psicodélica - Foto: Gabriel Rolim/Divulgação
Marcus Vinícius Beck
O vocalista e guitarrista Dinho acha o Boogarins a melhor banda de rock brasileira. “Quem gosta de nós gosta de tudo”, salientou no programa “Toca”, do UOL, em 2024. O músico foi claro. “Foda-se o rock. Foda-se a linguagem que tá rolando. Tem música nova interessante.”
Sim, caro Dinho, rola som foda por aí. Mas vocês fazem um rock psicodélico, lisérgico, como se o Clube da Esquina estivesse tomado um ácido com o Pink Floyd. É música que possui guitarras hipnóticas e meditativas, lentas e repetitivas, como disse o crítico André Barcinski.
Barcinski escrevia sobre o disco “Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos”, obra celebrada pelo Boogarins em show no Shiva Alt Bar, neste sábado (11/4), a partir das 20h. Lançado em 2015, o álbum foi elogiado por “The New York Times” e “The Guardian”.
O Times vibrou com o som dos goianos. Em seção sobre os melhores discos daquele ano, o respeitado jornal enalteceu a onda mundial de grupos e artistas psicodélicos. O Boogarins aparecia, no texto, junto das bandas anglófonas Tame Impala, Django Django e Panda Bear.
Para a publicação nova-iorquina, “Manual” trazia guitarras nebulosas, riffs cíclicos e vocais ciciantes — embora tivessem, aqui e ali, grooves típicos da bossa sempre nova de Jobim. “O quarteto tem marcado presença em grandes festivais ao redor do mundo”, dizia o periódico.
Foi o primeiro disco efetivo do grupo, que pegara os ventos para o Hemisfério Norte com “As Plantas Que Curam”, de 2013. Apesar de essencial para a trajetória internacional dos goianos, tratava-se de um experimento caseiro dos músicos Dinho Almeida e Benke Ferraz.
Era coisa doméstica, simples. Deu certo. Ensaiaram e gravaram uma demo com seis faixas. Benke mandou o material para blogs e sites interessados em “fritação” psicodélica. Tempos depois, ele sequestrou a atenção da Other Music Recording, gravadora de Nova York.
A Other Music Recording buscava as novidades do underground. Anos antes, a metrópole musical havia enxergado o “Sunday Morning” do The Velvet Underground, já tinha curtido Lou Reed “Walking On The Wild Side” e caído no escracho com o New York Dolls.
Agora, o lance dos gringos era essa molecada. Há pouco, eles tocavam no Martim Cererê. Já mandavam bem. Aí os caras caíram na estrada, com 101 shows. Europa e States enfeitiçados. Plateias dos festivais botando a língua pra fora e dizendo “é do caralho esse neo Mutantes”.
Dois anos depois da estreia, o Boogarins regressou ao estúdio. “Como banda de verdade”, dizia Benke à época. O baixista Raphael Vaz trouxe boas ideias, tal qual em “6000 Dias ou Mantra dos Vinte Anos”. Mas, durante as gravações, as baquetas mudaram de dono.
Na obra, grupo apresenta som psicodélico-tropicalista

Saiu Hans Castro, entrou Ynaiã Benthroldo, que vinha do Macaco Bong. Ele virou membro quando parte de “Manual” já tinha sido captada em Gijón, na Espanha. A sonoridade era psicodélica, é claro, mas havia ali um quê tropicalista, de Clube da Esquina e Júpiter Maçã.
São os “Truques”, para evocar a primeira faixa do disco. Após a intro instrumental, a voz de Dinho anuncia “Avalanche”. Cristalino e nítido, o canto se entrelaça às guitarras: “Não me deixam ver o sol/ Que não me deixam ver o sol/ Pra me prender nesse labirinto de tédio.”
O virtuosismo cativa ouvidos psicodélicos. Tal e qual os acordes daquele lado escuro da lua, Dinho e Benke acenam para a distorção de David Gilmour, cujos riffs e solos têm assinatura inconfundível. A letra, no entanto, soa simples: “Vou me libertar/ Do tempo dos homens.”
Nada de conveniência comercial. O som não é vintage. Não. A guitarra emite um fraseado meio rock progressivo dos anos 70, meio Toninho Horta. O solo, sublime, dissipa a rapidez velha do tempo. Na vitrola, ressoam os tais “6000 Dias ou Mantra dos Vinte Anos”.
Antes da balada “Falsa Folha de Rosto”, o Boogarins chega ao ápice. É “Mario de Andrade Selvagem”. Guitarra nervosa, solando. Acabou? Não, a música não acabou. Rola uma virada, um outro compasso. Dinho deixa pra lá a angústia. Um sintetizador faz a cabeça, os ouvidos.
A atmosfera indie reveste os músicos antes de começar “San Lorenzo”. É uma balada, de sangue quente e sonho evaporado. Não tente entender a letra, que não diz muita coisa. Se inserida no arranjo, ela funciona. Mas sinta o som, dotado de qualidades: “Cuerdo”.
Ao fim de “Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos”, o Boogarins percorre e distorce sonhos na faixa “Sei Lá”. Firma-se, sem deixar-se fixar. “Manual” finda com “Auchma”. Ingressos para o show no Shiva pelo Shotgun, a partir de R$ 70. Não vacile.