‘Vulgo Jenny’ retrata Goiânia por perspectiva periférica. Veja trailer
Redação Online
Publicado em 15 de abril de 2026 às 20:44 | Atualizado há 3 meses
Filme traz avenidas agitadas da capital goiana - Foto: Rafael Freire
Marcus Vinícius Beck
Viviane Goulart negocia com as pessoas. Faz parte de seu jogo cênico. No filme “Vulgo Jenny”, que estreia na próxima terça-feira (21/4), durante a mostra O Amor, A Morte e As Paixões, em Goiânia, a cineasta mineira gravou externas em botecos copos-sujos da cidade.
Viviane é familiarizada com esses ambientes. Ela morou na capital por três anos. Nesse tempo, tornou-se habitué do Seu Liberato, localizado em uma viela na Rua Três, no Setor Central. Seu filme traz também cenas gravadas no Seu Oswaldo, situado em Campinas.
“Tanto Seu Oswaldo quanto Seu Liberato sempre me atenderam bem”, conta Viviane ao Diário da Manhã, numa entrevista feita quando o longa estreou na Mostra de Tiradentes, em janeiro. “Como fui moradora do Centro, frequentei bastante o bar do Seu Liberato.”

Este repórter foi testemunha. Rolava muita cerveja, muita boa prosa. Boemia é tipo futebol: exige ritmo, resultado. Se você a larga por umas semanas, ela te puxa de novo, ainda que, suplicante, peças a tua nova comanda. Seu Liberato, é claro, serviu de locação para o filme.
Aprumado para a vida noturna, basta flanar pela alma das ruas goianienses. E tirar delas vivências, personagens e situações. Viviane conta à reportagem que a primeira externa de “Vulgo Jenny” foi gravada no Bar do Seu Oswaldo, o Birinights, no Setor Campinas.
A cineasta adaptou para a linguagem audiovisual um texto do poeta Marcos Coimbra, intitulado “Um Homem Nu”, publicado no livro “Memórias do Submundo”. Surgiu num exercício durante o bacharelado em Cinema e Audiovisual no IFG, na Cidade de Goiás.
Escrita
“Eu gosto de escrever e admiro bastante aqueles que se debruçam para fazê-lo”, diz Vivi, como os amigos mais próximos a chamam. “Sou poeta e esta proximidade com Marco Coimbra, desde o início de nossa relação, sempre me motivou a trabalhar, fosse com a publicação de suas poesias, fosse com a publicação de suas coletâneas de contos.”
Depois de um curta-metragem, a diretora sentiu necessidade de transformar os contos do escritor goiano em um longa. “Outros textos dele também me interessaram, mas o fato de conhecer a Dani, amiga de Marcão, me aproximou ainda mais da figura da Geni”, lembra.
Não deu outra: essa personagem foi transposta para a película como Vulgo Jenny. Talvez Dani tivesse convencido Viviane disso. Seja como for, a diretora se viu fisgada pela anedota. Afinal, tratava-se de um homem que apareceu peladão próximo ao comércio de Marcão.
De certa maneira, lembra-nos o personagem Sílvio Proença, do conto “O Homem Nu”, do escritor Fernando Sabino. Ele vai pegar o pão na porta de seu apê. O trinco, porém, se fecha. É dessas automáticas, de modo que o sujeito fica do lado de fora, pelado, com o pão na mão.
Essa condição, um tanto embaraçosa, chegou ao cinema nos anos 1990, pelas lentes de Hugo Carvana. Havia uma tensão. Pior: a cidade — no caso, o Rio de Janeiro — se converte em fenômeno policial e midiático. Vira e mexe, a obra passa no Canal Brasil de madrugada.
Na telona, capital emerge por ângulo pouco explorado

Cabeça a mil, Viviane Goulart estava fascinada. É uma história urbana, inesperada, ela pensava. Além disso, esse cara era justamente com quem Dani saíra um dia antes. Veja bem: é coisa doida. Mas ótima, filmável. Ele aparecia próximo ao comércio de Marcos Coimbra.
Aí já viu: uma cliente habitual deu de passar assustada pela venda de garapa. Uma amiga falou que ia “cobrar” visita em troca de cervejas e paçocas. Viviane queria escrever algo que pudesse gravar. “Desde o início deste projeto, pretendia gravar com o Marcão e com alguns amigos dele, os quais ele homenageia em seus contos”, diz a diretora a este repórter.
Foi o ponto de partida para “Vulgo Jenny”. Em cena, uma Goiânia pouco retratada no cinema local. A câmera segue a ambulante Jenny, papel de Juliana Salle. Ela desliza pela vida com o apoio dos parceiros Rato (Allan Jacinto Santana) e Primo (Fred Praxedes).
Inspirada pela linguagem do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, Viviane faz um filme de rua, gravado em avenidas e vias da capital goiana, onde trabalham pessoas marginalizadas. Eram lugares que a própria diretora frequentava quando passou a morar em Goiânia.

Campinas
Desta forma, “Vulgo Jenny” traz imagens vistas por Vivi em suas visitas a Marcos Coimbra, como o Camelódromo de Campinas. “Os contos de Marcão sempre falaram desses bairros vizinhos, Coimbra e Campinas”, rememora, evocando a alcunha “Campininha das Flores”.
Ou seja, há uma fronteira sutil entre realidade e ficção, tal e qual no cinema de Abbas. Viviane se interessa por esse jogo que envolve memória, realidade e encenação, pois possui relação forte com o documentário. Em “Vulgo Jenny”, isso aparece de forma sutil.
Segundo a diretora, trata-se de procedimento percebido quando algumas pessoas do cotidiano dos espaços retratados participam do filme. “Essa mistura entre pessoas reais, lugares reais e situações encenadas cria um território híbrido que me interessa muito.”
“Vulgo Jenny” contou com o apoio do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás (FAC) e também da Lei Paulo Gustavo, em 2023. Para a diretora, os recursos foram fundamentais para a etapa de finalização do longa-metragem, que tem sido visto e debatido em festivais.