ONU alerta para avanço da violência e da crise humanitária no Haiti em 2026
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 18 de junho de 2026 às 16:04 | Atualizado há 2 horas
Grupos criminosos exercem influência sobre territórios, rotas comerciais e comunidades em diferentes regiões do Haiti | Foto: REUTERS/Ralph Tedy Erol
A Organização das Nações Unidas (ONU) voltou a fazer um alerta sobre o agravamento da situação no Haiti. Em visita ao país na última terça-feira (17), o secretário-geral da entidade, António Guterres, afirmou que a nação caribenha enfrenta atualmente a pior crise do hemisfério ocidental e cobrou maior envolvimento da comunidade internacional diante do avanço da violência e da emergência humanitária.
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O cenário descrito pela ONU é marcado pelo fortalecimento de grupos criminosos armados, que ampliaram o controle sobre diversas regiões do país e provocaram uma onda de deslocamentos internos. Estimativas da organização apontam que cerca de 1,5 milhão de haitianos deixaram suas casas para fugir dos confrontos e da insegurança.
A crise também tem reflexos diretos na sobrevivência da população. Com dificuldades de acesso a alimentos e serviços básicos, mais da metade dos 11,7 milhões de habitantes do Haiti depende de assistência humanitária. Durante a visita, Guterres relatou ter encontrado famílias que vivem com apenas uma refeição por dia.
Gangues ampliam influência e recrutam menores
Os números da violência continuam crescendo em 2026. De acordo com dados divulgados pela ONU, aproximadamente 2,3 mil pessoas foram assassinadas nos primeiros meses do ano. O país já havia encerrado 2024 com um dos piores índices de homicídios do planeta, conforme levantamento da ONG Igarapé.
Mulheres e crianças estão entre os grupos mais afetados. Somente entre janeiro e março, mais de 20 casos diários de agressões contra mulheres e meninas foram registrados. Paralelamente, organizações criminosas intensificaram o recrutamento de menores de idade.
Segundo Guterres, a presença de crianças nas gangues alcançou um patamar alarmante. Atualmente, cerca de metade dos integrantes desses grupos armados são menores, fenômeno que demonstra o enfraquecimento das estruturas sociais e institucionais do país.
Ao comentar a situação, o secretário-geral afirmou que a população haitiana vive sob constante ameaça. Para ele, a expansão das gangues e a incapacidade do Estado de conter a violência transformaram o cotidiano da população em uma luta permanente pela sobrevivência.
Falta de recursos e instabilidade agravam quadro haitiano
Além dos desafios na segurança pública, a ONU aponta que a resposta internacional segue abaixo do necessário. O plano humanitário destinado ao Haiti recebeu apenas uma fração dos recursos previstos para este ano. Dos US$ 880 milhões considerados essenciais para atender a população, menos de um quarto foi efetivamente arrecadado.
A instabilidade política também continua sendo um obstáculo. O país não realiza eleições nacionais desde 2016 e atravessa sucessivas crises de governabilidade. Em 2024, uma ofensiva das gangues levou à saída do então primeiro-ministro, abrindo espaço para um governo de transição que ainda enfrenta dificuldades para restabelecer o controle institucional.
A dependência de importações torna a situação ainda mais delicada. Portos, estradas e corredores logísticos são frequentemente alvo de extorsão por grupos criminosos, que utilizam o domínio territorial para controlar mercadorias e interromper o fluxo de ajuda humanitária.
Com forte poder de fogo e presença consolidada em várias regiões, as gangues seguem exercendo influência sobre setores estratégicos da economia haitiana, dificultando os esforços para estabilizar o país e ampliar a assistência à população.