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Lionel Messi dança último tango em Nova York pela seleção da Argentina

Redação Online

Publicado em 17 de julho de 2026 às 21:00 | Atualizado há 46 minutos

Emoção: Messi diz que “é uma loucura” jogar duas finais seguidas - Foto: Asociación del Fútbol Argentino
Emoção: Messi diz que “é uma loucura” jogar duas finais seguidas - Foto: Asociación del Fútbol Argentino

Marcus Vinícius Beck

E as frases, eu que vivo de juntá-las, agora não as tenho. Onde estão as palavras para falar do sublime? Onde estão os verbos e substantivos? Lionel Messi rasga o espaço, tenta driblar, briga. Só falta, agora, esse deus canhoto, imortal, encerrar a sua jornada do herói com o tetra.

Escanteio. Por favor, amigo, não me entenda mal: estou assistindo a Messi. Ih, olha lá, o juiz já autorizou, o camisa 10 vai cobrar. Deram-lhe a bola e, vendo-se diante de dois ingleses, ele encaçapa um passe, tal qual uma tacada de sinuca numa madrugada incerta e esperançosa.

A jogada, como desconfiava o camisa 10, provou-se eficaz, porque Enzo Fernández, livre e na entrada da área, não teve dúvida: chutaria dali mesmo. Com isso, o volante empataria a peleja, muito dura e truncada. O time albiceleste, sete minutos depois, estaria em sua 7ª final.

Sopra o apito: fim. O Mercedes-Benz Stadium, nesse momento, é um hospício: os vitoriosos, com faixas estendidas, caçoam dos ingleses. “Las Malvinas son argentinas”, manifestam-se.

A Inglaterra, no ritmo do Oasis, se acovardou na semifinal da Copa. E, felizmente, jogará a partida da melancolia, no sábado (18), contra os franceses. A vida, como o mata-mata, não é para sangues-frios; é para quem se arrisca na incerteza. E vocês, ingleses, juraram mentiras.

Lionel Scaloni está eufórico: “Não há nenhum tipo de dúvida. É o melhor da história.” Tudo bem, é a felicidade após o espetáculo, porque não esquecemos dele — o Rei. Messi resolveu a contenda, craque objetivo que é. Mas, sem heresias, Pelé haverá de ocupar-se do seu trono.

Cabeça erguida: Messi anda em campo à espera do momento para acelerar o jogo, dar um passe ou finalizar – Foto: Asociación del Fútbol Argentino

Colada à canhota

Cabeça erguida, Messi anda em campo. Não esbanja nem desdenha. Caminha, distraído, à espera do instante para correr, bola colada à canhota, lépido nas ideias e sutil nos toques. Exibe toda a sua técnica, com simplicidade. Assim, muitas vezes, dá um passe ou finaliza.

César Luis Menotti, treinador argentino campeão mundial em 1978, escreveu na “Folha”: “Saber jogar bem futebol não é um grande segredo. Não adianta correr muito se não souber se deslocar bem, tampouco não é bom ficar paradão se não encontrar os melhores lugares.”

Neste domingo, contra a Espanha, Scaloni sabe que será um duelo de meio-campistas. Pelo lado ibérico, Rodri é, para citar o analista e craque Tostão, o pêndulo. Ele liga meio e ataque, movendo-se de uma intermediária à outra. Difícil errar um passe, pois evita o impraticável.

Às vezes, o espanhol arrisca e acerta lançamentos longos. Formou, com Fabián Ruiz e Álex Baena, o trio que dominou a França. A Argentina, em que pese sua característica cultural, também gosta da redonda e ama trocar passes. Há uma distinção entre as seleções: Messi.

Pressión, posesión e o gênio que disse não para a Fúria

Meia cerebral: Rodri dita ritmo da Espanha com cartilha de Pep Guardiola nos pés e na cabeça – Foto: Real Federación Española de Fútbol

O futebol é arte corporal, dança da beleza e do gesto. É poesia e beleza, linguagem e estética, drama e lirismo. Trata-se de jogo simples, muito simples, ainda que jogá-lo de tal forma é o que há de mais difícil. Sim, caro Johan Cruyff, só há uma bola na cancha, daí é preciso tê-la.

Johan Cruyff ensinou que o futebol é um jogo que se joga com a cabeça e no qual se usam os pés. Na Copa de 1974, o craque comandou o Carrossel Holandês, que fascinou o planeta. Era o começo da marcação por pressão. Todos atacavam e defendiam. Embora favorita naquele Mundial, a Laranja Mecânica parou na seleção alemã, dona da casa. O placar terminou 2 a 1.

No Barcelona, Guardiola aprimorou o estilo do profeta neerlandês. Seu time era agradável de se assistir, mas também eficiente. Caso os jogadores perdessem a bola, eles lutavam para recuperá-la onde foram desarmados. Havia troca de passe e triangulações, até que um atleta entrasse na área e fizesse o gol. Messi, aos 21 anos, jogava nesse revolucionário Barça.

Já era um craque-objetivo, essencialmente perfeccionista, dispensava adornos. Não perdia tempo, jogava com elegância, mapeando o caminho das redes. Guardiola, antes de um clássico contra o Real Madrid, chamou-o ao seu quarto e pediu-lhe que ocupasse o espaço atrás dos volantes. Messi fez dois gols, o Barça goleou e só se falou naquilo: o “falso 9”. 

Toque de bola: seleção espanhola controla o jogo a partir do jogo meio-campo – Foto: Fifa

Cruyffiano

Nascia, assim, um Messi cruyffiano. Na seleção argentina, porém, Lionel Scaloni criou um outro lugar para seu camisa 10 reluzir. Colocou-o fora das disputas, longe dos zagueiros. Sem a bola, o capitão não volta para marcar. Todavia, ao recebê-la — como um elegante meia-armador —, procura a tabela. Dá um pique, um passe. E sempre nos deixa pasmos.

Amado na Espanha — onde atuou por 21 anos —, o camisa 10 albiceleste foi elogiado pelo técnico Luis de la Fuente, da Fúria. “Lionel Messi? Parece que tem 19 anos, ou talvez 23. É insaciável. É um exemplo para todos no futebol. Quer sempre mais”, disse o treinador.

“Este Messi”, agora diz na “Folha de S. Paulo” o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, “reinventou seu lugar nos campos nesta Copa”. De la Fuente, sabendo que o argentino é ídolo de parte dos seus jogadores, quererá pressión e posesión. É a sua principal armada.

Fico a matutar o que seria caso o gênio resolvesse jogar pela seleção espanhola, como os ibéricos, em 2005, sonhavam e ele não aceitou. Embora morasse na Catalunha desde os 13 anos, Messi é, feito Cortázar ou Piazzolla, um argentino. Só tenho uma certeza: que final.


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