‘A Odisseia’, de Christopher Nolan, mostra que ninguém escapa do poema épico
Redação Online
Publicado em 26 de julho de 2026 às 21:42 | Atualizado há 2 horas
Odisseu: personagem é vivido em superprodução por Matt Damon | Foto: Mourão Panda/América
Marcus Vinícius Beck
“A Odisseia” foi levada ao cinema pelo diretor Christopher Nolan. Filmado em película de 70mm, o projeto custou US$ 250 milhões. Imagens e sons da aventura de Odisseu em sua tentativa de regressar à casa após a Guerra de Tróia irrompem na tela por três horas.
Odisseu, ou Ulisses, na versão latina, deixou em Ítaca, na Grécia, a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho, Telêmaco (Tom Holland). Outros personagens são apresentados, como Antínoo (Robert Pattinson), Helena (Lupita Nyong’o), Calipso (Charlize Theron), Atena (Zendaya) e Circe (Samantha Morton). Todos eles, bem ou mal, cruzam o caminho do herói.
Na versão de Nolan, quem vive o guerreiro grego é o ator Matt Damon. Manohla Dargis, crítica-chefe do New York Times, explica que o cineasta enfatiza as façanhas celebradas no verso inicial do poema épico, atribuído a Homero: “Musa, reconta-me os feitos do herói.”
Conforme o “Canto I”, da tradução para o português de Carlos Alberto Nunes, a assembleia dos deuses reuniu-se acerca do retorno de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Atena se desloca e, então, apresenta-se a Telêmaco, recomendando-lhe ir procurar seu pai em Pilo, cidade de Nestor, e Esparta, onde mora Menelau. É quando ela lhe dá sinais de que é deusa.
Nolan, no entanto, criou um herói menos divino. Segundo Dargis, as múltiplas facetas dele — guerreiro, líder, amante, marido, pai, trapaceiro, mentiroso — foram condensadas em um homem de “físico robusto”. Acentuam-se, portanto, as “intempéries falivelmente humanas”.
Jornada do herói
O poema épico traz 12.109 versos, nos quais se têm ação incessante e não linear, deuses sedutores e astutos, tipos mortais, monstros assustadores, eventos inóspitos e hospitalidade, com lágrimas e vinho. A jornada do herói implica sexo, ainda que implícito e narrativo.
Há mais, salienta Alberto Nunes. A narrativa homérica, cheia de fascínio, prende a atenção. Enamorado pela odisseia, o leitor quer o fim, para saber o desfecho do herói ou, até mesmo, o que se passou com as personagens secundárias. É um romance, no sentido das aventuras do sujeito (tal qual as obras de Flaubert e Goethe), pois exibe “enredo bem-arquitetado”.
Odisseu precisa vencer o inimigo superior, porque os fidalgos da nobreza invadiram seu palácio. Devoram-lhe os bens, requestaram-lhe a esposa. Penélope não se decidia a respeito de suas segundas núpcias, o que, segundo Alberto Nunes, nos é relatado desde o 1º canto. O rei de Ítaca desejava seus bens. Ansiava por sua mulher, de quem se separara havia 20 anos.
Por uma década (mais ou menos no ano 1200 a.C.), a Guerra de Tróia aconteceu na atual Turquia, próximo ao Mar Egeu. Fala-se que tudo começou por causa de Helena, a mulher mais linda do mundo, casada com Menelau. Ele era o rei da cidade-estado de Esparta, na Grécia. Enquanto o soberano estava ausente, Páris, jovem príncipe de Tróia, foi visitá-la.
Com ‘Ilíada’ e ‘Odisseia’, Homero atravessa milênios

Existem muitas versões. A mais conhecida indica que Helena seduziu Páris. Todavia, falava-se também em sequestro. Homero, em “Ilíada”, traz um painel gigantesco da Guerra, embora o título possa indicar apenas uma breve narrativa sobre o cerco dos gregos à cidade troiana de Ílion — trata-se da crônica de quase 50 dias de uma guerra que durou dez anos.
Homero abre a janela do tempo para paisagens, personagens e eventos. Desde então, tudo isso está gravado no imaginário ocidental. É nesse poema épico que surgem figuras como Heitor, Ulisses, Aquiles e Agamêmnon, bem como Páris e Helena. Os cantos — são 15.693 versos, ao todo — levam o leitor para o Olimpo: “Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles.”
No 1º canto, Homero escreve que a ira tenaz lançou mil fortes almas, de corpos de heróis a cães e abutres. O tradutor Carlos Alberto Nunes, notório helenista, situa a destreza do poema ao tratar de um episódio “secundário, secundaríssimo, que dura alguns dias numa campanha de dez anos”. O adjetivo homérico, lembremos, dá conta do que é monumental.
Ao fim da leitura, restam-nos a morte e os funerais de Heitor, “a certeza da queda próxima do burgo”, como assinala Alberto Nunes. Aliás, o literato atesta: “O traçado da Odisseia é de mais fácil compreensão e, digamos, artisticamente de melhor planejamento, pela disposição concêntrica, em que o herói do poema relata suas aventuras durante a peregrinação.”
Adaptação
Chega-se, pois, à adaptação de Nolan. A montagem não é linear, mas espiralada. O espectador circula pela história, com saltos temporais e revelações a respeito de Odisseu — antes mesmo de o herói ir para a Guerra de Tróia. É algo que se vivencia no filme a partir da polifonia de vozes, indo dos aliados e inimigos ao amor de Penélope e do filho, Telêmaco.
Por isso, muitos dizem que é uma obra de arte colossal. Afinal, trata-se de algo engenhoso, já que não é tão simples transpor um épico para o cinema. Evgenia Makrygianni, professora de literatura grega antiga, afirmou ao jornal The New York Times que “A Odisseia” se vincula à identidade ocidental. De William Shakespeare a James Joyce, ninguém escapa de Homero.