Barão Vermelho reedita em vinil pelo Três Selos Rocinante o disco ‘Álbum’
Redação Online
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 21:15 | Atualizado há 2 horas
Sucesso: disco emplacou nas paradas hits e se tornou um marco na discografia da banda | Foto: Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Chego em casa e caio matando no som. Começa a ressoar “Álbum”, do Barão Vermelho, reeditado agora em vinil pelo Três Selos Rocinante. Fico chapado com o domínio que o grupo revela na arte da interpretação, conseguindo dar a canções alheias uma roupagem própria. Roberto Frejat solta a voz: “Vou rasgar dinheiro/ Tocar fogo nele, só pra variar.”
Nada de cover, apesar dessa aí ser coisa do Raul Seixas. O baiano, tendo Kika Seixas e Claudio Roberto como parceiros, criou uma música anárquica. “Só Pra Variar” saiu no LP “Abre-Te Sésamo”, de 80. O Barão, botando pra quebrar, se reconhece nela, em sua ironia e crítica.
Essa identificação ocorre justamente porque o grupo vinha do CD “Carne Crua”, de 94, que, embora fosse autoral, não obtivera o resultado esperado de divulgação, execução de rádio e vendagem. Tem que acontecer alguma coisa, Raulzito, parado é que não podemos ficar.
A Warner não jogaria alto no Barão, desconfiada do baixo desempenho comercial dele. Já os barões achavam que, ao apresentar material inédito, talvez as canções e o novo disco não contassem com empenho da companhia na hora da divulgação. A solução encontrada pelos músicos foi gravar um CD de intérprete, comum entre artistas de MPB, porém raro no rock.
Com “Álbum”, o Barão Vermelho mostrou que vinha quente e fervendo. Todos os temas escolhidos eram pré-1981, ano de fundação do grupo, algo que, na verdade, evidenciava as referências iniciais de Frejat (voz, guitarra e violão), Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados), Fernando Magalhães (guitarra), Peninha (percussão) e Rodrigo Santos (baixo).

Repertório
Aos poucos, o repertório ganhou forma. No livro “Por Que a Gente é Assim”, publicado em 2007, os autores Guto Goffi, Ezequiel Neves e Rodrigo Pinto descrevem “Álbum” como um “retrato das influências de uma geração filha da Tropicália, sobrinha-neta da Jovem Guarda e geneticamente mutante, como todos os que se envolvem com o tráfico de informação”.
Os barões, indo do rock ao samba, aglutinam canções de Raul Seixas, Angela Ro Ro, Luiz Melodia, Rita Lee, Caetano Veloso e Julio Barroso. Ezequiel Neves, ou Zeca Jagger, auxiliou e também produziu a obra. “Madrasta” e eventual letrista, Zeca havia descoberto o Barão em 1981, pirando ao curtir o “rock demolidor costurado por uma guitarra crispante”.
Frejat não queria ser rebaixado. “Cover é o cacete”, declarou ele, em 96, à revista “Bizz”. “Cover, para a gente, é ofensa. No Brasil, a palavra é usada para bandas que tocam igual ao original. Um garoto de 11 anos pode ouvir o disco e achar que somos os autores das músicas. Quando o artista regrava bem, não parece que a música é de outra pessoa.”
Foi o objetivo perseguido por Frejat e os demais. As sessões do CD aconteceram no estúdio Nas Nuvens e Companhia dos Técnicos, em dezembro de 1995. O Barão, como lembra Guto, estava cansado da camisa-de-força de ser o grupo rock’n’roll, com casaco de couro, camisa de oncinha e bota de matar barata. “Não queríamos que essa imagem fosse eterna”, afirma.
Barão consegue façanha de fazer samba ter viés roqueiro
Façamos um retorno à audição. O “Álbum” continua a ecoar pela sala do meu apê. Janela escancarada, sinto o vento quente e seco de agosto. Seguro o encarte do LP e escuto o riff clássico de “Malandragem Dá um Tempo”, de Popular P., Adelzonilton, Moacyr Bombeiro. O Barão Vermelho, aqui, fez questão de cair no samba, mas fugiu da forma tradicional.
Ouço a linha de metais inspirada no filme “Queimando Tudo” (“Up In Smoke”, em inglês, dirigido por Lou Adler em 1978). Trata-se de uma sacada do astuto Peninha. O Barão, com esse samba de viés roqueiro, colocou-se no debate da maconha: “Se segura malandro/ Pra fazer a cabeça tem hora.” Para os músicos, o lance era apertar um, mas não acender agora.
Agora começa “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”, de Carlos Imperial e Eduardo Araújo. Tem um groove gostoso, essa música. O baixista Rodrigo Santos disse ao Diário da Manhã que a faixa fora uma sugestão do publicitário Washington Olivetto, pois queria o Barão em seu comercial de televisão. “Fizemos um hit que não estava no disco”, lembra Rodrigo.
Dançante e suingada, a versão possui um arranjo fulminante, soando roqueiro e moderno ao mesmo tempo. Serginho Trombone, “A Fantástica Fábrica de Metais da MPB”, cuja metaleira está no som de Tim Maia e Alcione, assina o sopro da música. Tornou-se, hoje, um clássico.

Blues
Depois, num bluesão, Frejat emite um timbre de voz grave, mais do que o habitual. “Parece um cara completamente junkie”, conceituou o artista, na época, durante entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”. De Cazuza e Frejat, o que rola aqui é “Só as Mães São Felizes”. Você nunca viu Melodia transvirado rezando pelo Estácio, que, todavia, dá pinta no toca-discos.
“Beijos demorados não podemos mentir”, entoa Frejat, evocando a poesia malandra de Luiz Melodia. Os barões, então, ficam “Perdidos na Selva”, tal e qual na música de Júlio Barroso. A Gang 90 é deposta e inicia-se “Amor, Meu Grande Amor”, de Angela Ro Ro e Ana Terra, com Frejat pedindo à amada para não aparecer na hora marcada, feito as paixões e palavras.
Tudo para lembrar que, bem ou mal, “Não Há Dinheiro que Pague”, essa lírica que não é do Roberto Carlos, mas é como se fosse. Suspenderam os “Jardins da Babilônia”, rock do Tutti Frutti de riff sincopado e sinuoso executado por Frejat. Ele, no desfecho, se supera e vocaliza “Um Índio”, de Caetano Veloso, transformada pelo Barão em um rock hendrixiano. É mole?