Desmatamento no Cerrado cai 19% em agosto, enquanto Amazônia registra alta de 12%
Léo Carvalho
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 13:15 | Atualizado há 26 minutos
Dados do Inpe mostram redução dos alertas de perda de vegetação no bioma no mês do Dia do Cerrado | Foto: Marcelo Brandão
O Cerrado chega ao seu dia, celebrado nesta sexta-feira (11), com uma redução nos alertas de desmatamento. Dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que a área sob alerta de perda de vegetação nativa caiu 19% em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2025.
Foram identificados 238 km² de vegetação nativa sob alerta de desmatamento no Cerrado em agosto deste ano. No mesmo período do ano passado, o número havia chegado a 294 km².
Na Amazônia, o movimento foi contrário. A área sob alerta passou de 319 km² em agosto de 2025 para 358 km² no mesmo mês de 2026, aumento de 12%.
Os dados foram apresentados nesta sexta-feira, em São Paulo. O Deter é utilizado pelo governo para emitir alertas que orientam ações de fiscalização e controle. Os números oficiais de desmatamento são calculados por outro sistema do Inpe, o Prodes, considerado mais preciso e divulgado anualmente.
Período de seca concentra alertas
Os meses de julho, agosto e setembro costumam concentrar os maiores índices de desmatamento na Amazônia por coincidirem com o período mais seco da região, quando as condições climáticas favorecem a retirada da vegetação.
No Cerrado, o comportamento também está relacionado à estiagem. A diferença é que o período seco costuma começar mais cedo e se prolongar por mais tempo, com início geralmente em maio.
A menor presença de nuvens durante a estiagem também facilita a observação por satélite. Por esse motivo, o Inpe considera como período de referência para medir a dinâmica anual do desmatamento o intervalo entre 1º de agosto de um ano e 31 de julho do ano seguinte.
Na Amazônia, o período entre agosto de 2025 e julho de 2026 apresentou o menor índice de alertas de desmatamento de toda a série histórica do Deter, iniciada em 2015.

Governo cria áreas prioritárias para proteger água
Além da divulgação dos dados, o governo federal anunciou uma nova medida voltada à conservação do Cerrado. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, assinou nesta sexta-feira uma portaria que cria as Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado (APRHIC).
A iniciativa estabelece regiões consideradas estratégicas para ações de conservação e recuperação da vegetação, com foco na proteção das áreas responsáveis pela recarga dos aquíferos.
A medida busca preencher uma lacuna da legislação ambiental. As normas já estabelecem mecanismos de proteção para margens de rios e nascentes, mas não contemplavam de forma específica as áreas de recarga hídrica.
O Cerrado tem papel central na disponibilidade de água no país. O bioma concentra as nascentes de oito das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras. No caso do rio São Francisco, por exemplo, 94% da água tem origem no Cerrado.
Segundo Capobianco, a definição das áreas prioritárias pode ajudar o poder público a direcionar melhor recursos financeiros e equipes para a conservação.
“Quando esse mecanismo apresenta as áreas prioritárias, permite organizar melhor os investimentos”, afirmou o ministro. Segundo ele, a medida contribui para melhorar a preservação de um bioma que sofre pressão há décadas.
Vegetação ajuda a abastecer aquíferos
O levantamento que serviu de base para a portaria identificou que 51,2% da área do Cerrado é considerada prioritária para a recarga hídrica.
Para Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e um dos responsáveis pelos estudos, o reconhecimento federal reforça a importância do bioma para a segurança hídrica brasileira.
Segundo o pesquisador, a metodologia utilizada permitiu identificar e medir a capacidade do Cerrado de infiltrar, armazenar e distribuir água durante os períodos de seca.
A vegetação nativa exerce papel fundamental nesse processo. As raízes profundas das plantas favorecem a infiltração da água no solo e contribuem para a recarga dos aquíferos. Com a retirada da cobertura vegetal, essa função pode ser comprometida, afetando também a disponibilidade de água nos rios.
O mapeamento poderá ser utilizado pelas administrações públicas em processos de licenciamento e autorização para desmatamento. A intenção é permitir que as decisões considerem os impactos sobre as áreas consideradas estratégicas para a manutenção dos recursos hídricos.
“Estamos dando subsídio científico para que a gestão pública seja feita não às cegas”, afirmou Salmona.
Pagamento por preservação
Outra medida anunciada nesta sexta-feira regulamenta modalidades de pagamento por serviços ambientais.
A portaria assinada por Capobianco estabelece regras para mecanismos de recompensa destinados à preservação ambiental em propriedades privadas. A iniciativa permite organizar como os recursos poderão ser repassados a proprietários que mantenham ações de conservação.
As duas medidas anunciadas pelo Ministério do Meio Ambiente colocam a proteção da vegetação e a segurança hídrica como eixos de políticas de conservação do Cerrado. (JÉSSICA MAES/Folhapress)