Globo de Ouro: Vitória confere fôlego em campanha para o Oscar
Redação Online
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 20:58 | Atualizado há 6 meses
Wagner Moura aparece bem-cotado às vésperas de um dos prêmios mais importantes da indústria –
Sob o sol esturricante do sertão, o ator Wagner Moura desconfiou de que chegaria ao Globo de Ouro no princípio de “O Agente Secreto”. A premiação, realizada em Los Angeles, nos Estados Unidos, neste domingo (11/1), deve consagrá-lo como melhor ator (drama), numa disputa pau a pau entre ele, Michael B. Jordan (“Pecadores”) e Oscar Isaac (“Frankenstein”).
Pelo menos é o que se fala em certos corredores da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, em inglês). Com votação findada no dia 3 de janeiro, os votantes querem prestígio e popularidade no Beverly Hilton Hotel — sem, no entanto, renunciar à imprevisibilidade.
Diante desse cenário, a vitória do brasileiro conferiria fôlego à sua caminhada para o Oscar. A favor de Moura, uma reportagem do influente The Washington Post. “Uma potência”, exalta o jornal. Também em benefício dele, outro registro jornalístico, desta vez publicado no respeitado The New York Times. “Simplesmente genial”, enaltece a gazeta americana.
Como nada disso é novidade para ele, lá vem o ator soteropolitano cheio de gracejo, discurso politizado e afiado, deixando a imprensa gringa agitada. “Bolsonaro agora está preso, então, nos livros de história, ele vai ser esse fascista eleito pelos brasileiros que tentou um golpe de Estado”, declarou, às vésperas do Globo de Ouro, ao The New York Times.
Artista brasileiro, demasiado humano, Moura atraiu os reaças com “Marighella”, filme que escreveu, produziu e dirigiu. O longa-metragem, baseado no catatau “O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, do jornalista Mário Magalhães, estreou no Festival de Berlim em 2019. Segundo o ator, o governo Bolsonaro o impediu de lançá-lo no Brasil até o fim de 2021.
“Marighella” foi espinafrado, e Moura, esse comunistazinho, tornou-se figura inglória. Ocorre que, para pesadelo dos censores, a obra virou fenômeno pop — filas nos cinemas, sessões lotadas. De quebra, a biografia ainda se esgotou nas livrarias — best-seller.
Lá e cá
Curioso, esse efeito. Mostrou-se proibicionista, no início de 2019, com todas as baterias voltadas ao tipo perigoso de nome Carlos Marighella, assassinado a tiros em novembro de 1969, em São Paulo. Logo depois, aquela finalidade inicial regrediu e, assim, foi possível lembrar que não é tão simples apagar da história um deputado federal constituinte.
Diretor de “O Agente Secreto”, o pernambucano Kleber Mendonça Filho conversou com Moura sobre “Marighella”. Na pauta, segundo o cineasta, “essa macharada tão pilantra”. A extrema direita, assanhando-se cada vez mais, estava no encalço de Mendonça Filho desde a première de “Aquarius”, em 2016, no Festival de Cannes. Por certo, era alvo desse grupo.
Não muito tempo depois, conforme Mendonça Filho, já “chamávamos fascista de fascista”. “Na mídia-veneno brasileira, contrariar uma versão oficial é receita certa para ser chamado de ‘polêmico’. Um dia quero ser xingado de sensato”, ironiza o diretor, ao guiar o leitor pelo roteiro de “O Agente Secreto” — cuja obra chegou há pouco às livrarias pela editora Record.
O cineasta, porém, se autoenganou. Para ele, o filme estrelado por Wagner Moura teria um “disfarce natural” ao situar a história há 50 anos, sob o manto do “filme de época”. Até que uma questão o inquietou: somos, brasileiros em geral, desmotivados em relação à história?
Como observa o professor Eugênio Bucci, “O Agente Secreto” secreta a gente. Isto é, ainda nas palavras do pesquisador, o roteiro progride porque o thriller político o impulsiona, levando-o a gêneros díspares entre si — sobretudo a comédia de erros e o terror gore.
Diretor queria atmosfera ficcional, embora verídica
A película se inicia numa atmosfera de suspense, ou num trecho ermo de estrada secundária, tal qual assinala Mendonça Filho em seu roteiro. É mil novecentos e setenta e sete: a ditadura silencia vozes contrárias. A polícia mata, corrompe-se. Marcelo (Wagner Moura) volta à capital pernambucana atrás de refúgio, mas a percebe esclerosada demais para escondê-lo.
Na primeira cena, o personagem dirige um Fusca amarelo-claro 1972. Encosta num posto de gasolina quase escondido. O condutor, misterioso e melancólico, com camisa azul e branca na estica, manga curta, sandália de couro e calça jeans, diz ao frentista: “Pode completar.”
Em certa altura, a plateia descobre que Marcelo é, na verdade, Armando — está jurado de morte. A ex-mulher, mãe de seu filho, morreu: mataram-na? Não há resposta — ao que tudo indica (pense por um ou dois segundos), assassinaram-na. Assim era a vida na ditadura.
Sabor do país
Apesar das semelhanças, o longa não apresentaria nenhuma semelhança com a realidade. Segundo Mendonça Filho, a intenção era construir uma atmosfera histórica que fosse verídica, “mas cuja trama fosse ficcional e fantasiosa”. “A lógica, o sabor e o cheiro do Brasil — num momento histórico brasileiro — seriam verdadeiros”, explica o cineasta.
Talvez por isso, nos últimos dias, “O Agente Secreto” tenha sido citado nos bastidores da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) como favorito a melhor filme em idioma não inglês, embora “Foi Apenas um Acidente” e “Valor Sentimental” sejam fortes.
Tanto faz o prêmio que vier — é muito bem-vindo. Com isso, a candidatura ao Oscar, cuja lista será divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no dia 22 de janeiro, ganha força. Até lá, resta comparar a trajetória de Moura e Fernanda Torres, com o baiano, inclusive, melhor nas premiações — de sete indicações, venceu três. Já Torres, uma de três.
Foto de destaque: Starpix