Livro revela Scorsese à procura de Deus ao diálogar com padre Antonio Spadaro
Redação Online
Publicado em 7 de dezembro de 2025 às 21:09 | Atualizado há 7 meses
Martin Scorsese (à direita) com guitarrista Keith Richards (à esquerda)
Marcus Vinícius Beck
Um expressionista entre pecado e redenção — esse é Martin Scorsese. O cineasta levou as ideias de Dostoiévski em “Memórias do Subsolo” à tela grande, como quando filmou Nova York com fúria existencial no clássico “Taxi Driver”, disponível no catálogo da HBO Max.
Fez isso há tempos, é verdade: 50 anos atrás. Agora tem 83. No entanto, continua à procura de Deus — como sempre esteve, aliás — e obtém a graça espiritual. Scorsese equilibra-se em meio à luz e à sombra, em meio à lembrança e à família, em meio à solidão e aos sonhos.
A obra já chegou às livrarias. Em tom confessional, o artista nova-iorquino regressa à infância em Little Italy durante conversa com o padre e ensaísta italiano Antonio Spadaro. Sua curiosidade acerca da forma com que a humanidade percebe o Altíssimo guia a obra.
Para o cineasta, tudo se reduz à questão de graça. “A graça é algo que acontece ao longo da vida. Ela chega quando você não espera”, afirma. Nesse sentido, a certeza de que temos respostas sobre os mistérios habituais à vida seria, em síntese, uma descabida ingenuidade.
Quando criança, Scorsese sofria com asma e, sem poder brincar, observava o mundo da janela de seu quarto. Lá fora, Nova York zunia os ruídos da violência, da honra e do pecado. Esses sons, segundo o cineasta, misturavam-se ao balé cotidiano. Nada frearia a metrópole.

Na igreja, os rituais sagrados lhe prometiam algo que a vida negaria — ou quereria, pelo menos. Havia uma tensão urbana entre a brutalidade do asfalto (mafiosos) e o mistério do altar (fé) — seria, inclusive, a origem da obra scorsesiana, essencial para explicar o zeitgeist.
O set imaginário, aqui e ali, tinha sonhos e pesadelos, gângsteres e padres entre os personagens. Neto de imigrantes italianos, o menino foi coroinha. “É de onde surge uma mistura de laços de sangue, violência e sagrado”, acentua Spadaro, de inclinação jesuíta.
Ao assistir “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964), Scorsese ficou arrebatado. Era, para ele, o “melhor filme sobre Cristo já feito”. O católico, comunista e homossexual Pier Paolo Pasolini mostrava um Cristo ecumênico, meio socialista, cuja visão se revela nas locações, nos não-atores (escolha neorrealista) e nos figurantes — com cortes secos na montagem.
Glauber Rocha, assim que o filme estreara, escreveu na imprensa: “O Cristo de Pasolini é forte, viril, sem complacência para opressores e canalhas.” “Este Cristo desmistificado e revolucionário”, comparou o brasileiro, “parece ter saído das encíclicas de João XXIII”.
De Glauber, voltemos aos “Diálogos sobre a Fé”: intelectualmente estimulante. Scorsese subsolou a arte das imagens em movimento e, com a câmera na mão, perscrutou a alma de seus personagens em busca da centelha de graça. Diz, entretanto, que isso é intuitivo.
Aliás, o que se aprende nesse ofício é a técnica, acrescenta. Mas não nos enganemos: Scorsese é um mestre. O inaplicável simplifica-se: “Taxi Driver”, seu filme de 1976, opera dessa forma — com luzes de néon, trânsito caótico e tipos indesejáveis (para o capitalismo) nas ruas.
Fé nas imagens

Talvez o católico Martin Scorsese seja o último cineasta a ter fé nas imagens (ajudado, há que se creditar, pelo protestante Paul Schrader), como certa vez disse o crítico Inácio Araújo. O cineasta, segundo Araújo, ama e filma como ninguém, em travellings noturnos e tristes.
Ei Travis (Robert De Niro): frustrando-se. Não encontra espaço na sociedade, fracassa no sexo e vai à guerra — embora a princípio não compreenda contra quem. A cidade fede, ele diz ao candidato à presidência dos EUA. A partir do para-brisa, exala o odor do inferno.
Na revista “New Yorker”, em crítica publicada em fevereiro de 1976, a ensaísta Pauline Kael constatou: “é um filme intenso, uma versão crua e sensacionalista de ‘Notas do Subsolo’, e acompanhamos o ódio do Travis do início ao fim.” Vemos sua raiva e, ao fim, sua redenção.
Logo, é irresistível situá-lo no contexto do livro “Diálogos sobre a Fé”. Irresistível ou não, o fato a se considerar está aqui: Scorsese encontrou-se com o jesuíta Antonio Spadaro por quase uma década. Isto é, o artista abriu seu labirinto pessoal e sua perplexidade humana.
Daí, a busca por um Cristo demasiado humano, o seu embaraço diante do mal e, sobretudo, a convicção de que a fé nos salva a todos — tal e qual no filme “A Última Tentação de Cristo” (1988). O longa nasce do romance do autor japonês Shūsaku Endō — ele próprio um cristão.
“[Minha ideia era retratar] alguém que se pode conhecer e com quem se pode falar”, revela o diretor a Antonio Spadaro, cuja amizade entre eles se intensificou após leitura de “A Trama Divina”. O prefácio foi assinado pelo Papa Francisco, que emocionou o experiente cineasta.
Scorsese redigiu um roteiro de filme sobre Jesus Cristo — talvez saia em 2026 ou 2027. O texto chegou a Spadaro, arrebatado por esse Jesus que “contém multidões” — referência a Walt Whitman e Bob Dylan. A ideia chegou a ser levada ao Santo Padre antes de sua morte, em abril de 2025, aos 88 anos, pelo próprio diretor. Entre eles, houve “Diálogos sobre a Fé”.
Foto: Jacob Cohl/ Paramount Classic