Ney Matogrosso bota bloco em show no Centro de Convenções da PUC
Redação
Publicado em 2 de março de 2026 às 21:40 | Atualizado há 3 meses
Ney Matogrosso, 84, impressiona pela vitalidade no palco - Foto: Ricardo Nunes / Divulgação Vivo Rio
Aos 84 anos, o cantor Ney Matogrosso bota nesta sexta-feira (6/3), a partir das 21h30, seu bloco sobre o palco do Centro de Convenções da PUC, em Goiânia. O show, sucesso entre a crítica e o público, encantou geral durante o último ano. Ney brinca, bota pra gemer. Geme.
A cortina se abre, os músicos começam a tocar e o camaleão está ao fundo, vestindo capuz e movendo-se com a roupa dourada colada ao corpo. É como se fosse armadura. A plateia grita, ovaciona. Ele solta a voz: “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio.
Estamos arrasados. No entanto, o bloco se finda e, de repente, chegamos aos “Jardins da Babilônia”. Ney ataca de Tutti Frutti, grupo do qual Rita Lee foi integrante nos anos 1970. Rock stoniano. Logo depois, porém, ressoa o timbre do metal. “O Beco”, dos Paralamas.
Ney diz que o repertório fora selecionado enquanto excursionava com o espetáculo “Atento aos Sinais”. “Não é um show de sucessos meus, mas quis abrir mais para o meu repertório. Dessa vez, eu misturei coisas que já gravei com repertório de outras pessoas”, explica.
Na quarta canção, o ritmo se desacelera. Ney apaga as chamas de seu fogo, embora ainda seja possível observá-las aqui e ali. O bolero de DJ Dolores, “Álcool”, anuncia: “A noite mira a cidade lépida/ Glorificada em edifícios sólidos/ E me confronto com a crença humana.”
Vanguarda
Se os desejos são sórdidos, como sopra a letra manguebeat, então “Já Sei”: “Vou cantar em inglês/ Pra você entender.” A canção, de Itamar Assumpção e Alzira Espíndola, ainda versa: “Você pode entender a dor/ Sendo sócia do amor/ Saberás que não há/ Sangue de outra cor.”
Eis a música, rasgando a pele. No palco, entoa a união entre tropicalismo, rock e androginia. Mas tudo isso é por enquanto. Enquanto vivemos. Ou, melhor, enquanto assistimos a Ney. O riff, novíssimo, eletrifica “Sangue Latino”, que abre o disco “Secos e Molhados”, de 1973.
Com fraseado à la Keith Richards, a guitarra de Marcelo Negrão levanta o show. Antes disso, entre baladas e amores, o artista construiu um bloco romântico com “A Maçã”, “Tua Cantiga”, “Iolanda” e “Postal de Amor”, rompido por “Pavão Mysteriozo”, de Ednardo.
Segundo Ney, é a voz que ainda segura o tranco. Para manter o corpo, ele diz, faz ginástica todos os dias quando está em sua casa. “Eu tenho 84 anos, mas continuo dançando igual”, disse Ney à RFI, durante passagem da turnê “Bloco na Rua” por Paris, em outubro de 2025.
Como um furacão, o artista não fica quieto. É assim desde os tempos de Secos & Molhados, quando era alvo da censura. Vivia-se, naqueles tempos, sob a ditadura militar. Não se podia usar rabo de cavalo, desvirilizante, e era bom que não se rebolasse. Ah, façam-me o favor.
Na ditadura, Ney apostou em coreografia provocante

“Ninguém olha para a câmera”, disseram. A voz ecoou pelos estúdios da TV Globo, onde o Secos divulgaria o primeiro disco. Ney olhou. Mexeu-se, agitou-se. Performou e, maquiado, provocou. Mostrava à família brasileira as delícias de ser você mesmo. Rapaz abusado, esse.
De toda forma, não seria a primeira vez. Ney passaria dois anos sem cantar em Brasília porque a esposa de um general se descontentara ao notá-lo, sem camisa, diante da plateia. Quando voltou a fazer shows, vetaram-lhe os teatros. Só restou-lhe a quadra de um colégio, o espetáculo não deveria ser publicizado e o cantor não poderia circular pela cidade.
Olhe lá: piano bluesy. Sim, o cantor afina os últimos preparativos. E agora, José, vem o quê? Parece que sairá “Como Dois e Dois”, essa belíssima música escrita por Caetano Veloso. Ney tem ainda “Mulher Barriguda”, dos Secos, destinada às plateias ávidas por sua ex-banda.
Até aqui, as pérolas já foram apresentadas, como “Postal de Amor” e “Ponta do Lápis”, lançadas em duo com Fagner, em 1975. Da fase solo, o público goiano deve curtir “Tem Gente com Fome”, de 1979, e “Coração Civil”, de Milton Nascimento, gravada em 1983.
Insanável e camaleônico, Ney diz à RFI: “Ainda estou mudando o show [Bloco na Rua], acrescentando músicas para não ficar chato para mim, porque estou com ele desde 2019.”
O próximo projeto, revela, é cantar um disco apenas com canções de Angela Ro Ro. “E isso já era uma ideia minha antes de ela morrer, tá? Estou pretendendo fazer um disco. Hoje em dia não existe mais essa história de lançar um álbum e fazer um show”, afirma o cantor.
BLOCO NA RUA
Quando: sexta-feira (6/3)
Horário: a partir das 21h30
Onde: Centro de Convenções da PUC
Endereço: Av. Engler, 507 – Jardim Mariliza