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Série ‘Emergência Radioativa’ revive Césio-137 em Goiânia na Netflix. Veja trailer

Redação Online

Publicado em 15 de março de 2026 às 20:11 | Atualizado há 4 meses

Johnny Massaro (à direita) protagoniza minissérie ficcional - Foto: Netflix/ Divulgação
Johnny Massaro (à direita) protagoniza minissérie ficcional - Foto: Netflix/ Divulgação

Marcus Vinícius Beck

A série “Emergência Radioativa” chega nesta quarta-feira (18) ao streaming. Dirigida por Gustavo Lipsztein, a obra pretende retratar o acidente com Césio-137, ocorrido na capital goiana em 1987. Foi um episódio traumático, cuja ferida ainda não está cicatrizada.

Nas últimas semanas, a Netflix divulgou cenas que enquadram um cenário desolador. O gancho dramático é uma tragédia iniciada quando uma máquina de radioterapia acabou por ser aberta num ferro-velho localizado na Rua 57, no antigo Bairro Popular, hoje Centro.

Para a Gullane, produtora da minissérie, o roteiro retrata “um drama de heróis anônimos que mobilizou o país e pôs em destaque o trabalho de cientistas e médicos brasileiros”. É protagonizada pelos atores Johnny Massaro e Paulo Gorgulho, conhecidos do público.

“Emergência Radioativa” recria a corrida contra o tempo para investigar a contaminação, de forma a salvar vidas, entre elas uma família assolada pelo desastre radioativo. Em vídeo, a atriz Leandra Leal destaca o impacto provocado pela retirada das famílias de suas casas.

Mesmo assim, a decisão de gravar em São Paulo provocou uma celeuma. O Conselho Municipal de Cultura, em carta aberta, cobrou a Netflix acerca das locações paulistanas. Segundo a entidade, a escolha representa uma negação da memória coletiva da capital.

Ao pegar o equipamento, Devair Ferreira acessou a cápsula na qual encontrara um pó azul cintilante: era Césio-137. Impressionado com a descoberta, ele compartilhou o material entre familiares e vizinhos. Não fazia ideia de que aquele objeto o colocaria sob risco iminente.

Afinal, a substância emitia radiação — por isso as pessoas adoeciam, tinham mal-estar, vômito, tontura, diarreia. Um flagelo radioativo. O artefato abandonado pertencia a uma antiga clínica. Foi descartado como se fosse um simples lixo doméstico.

Leandra Leal atua em série sobre acidente com Césio-137 – Foto: Netflix

Cinema

A menina Leide das Neves, de 6 anos, foi uma das vítimas fatais. Em 2003, o cineasta Ângelo Lima lançou o curta-metragem “Amarelinha”, cuja narrativa filma uma criança a brincar nas ruas do bairro atingido pelo acidente radioativo. Leide não sonhou, partiu jovem demais.

Outros filmes abordam a calamidade, como o documentário “Césio no Sangue”, do diretor sueco Lars Westman. Lançada nos anos 2000, a obra retoma uma pauta desenvolvida por Westman para a televisão estatal de seu país, intitulada “Eu Tenho Césio Dentro do Sangue e Tenho Medo”. Segundo ele, o cenário encontrado na capital goiana “foi de desolação”.

Desde então, o césio estimula produções audiovisuais. O artista visual Benedito Ferreira recebeu, em 2017, um prêmio no festival Uranium Film Festival, em Berlim, na Alemanha, por sua direção do curta “Algo Do Que Fica” — antes disso, ele fora laureado no Fica.

Ferreira, autor do doc “O Vizinho Silencioso”, também sobre o Césio-137, deambula pela ficção naquele projeto. A trama revela a história de uma avó e neta que se mudam da casa onde vivem, localizada ao lado do lugar no qual ocorrera acidente radiológico.

Até hoje, essa é considerada a maior catástrofe do tipo em área urbana do mundo. A professora Emico Okuno, durante seminário organizado pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, em 2015, classificou o episódio como “uma coisa horrível”.

Em pesquisa, Telma Camargo retratou dor e estigma

Pesquisadora participa de manifestação pelos 10 anos do desastre – Foto: UEG

Parte dessa memória foi registrada pela antropóloga Telma Camargo, que doou seu acervo sobre o césio para o Laboratório Universitário de Memória Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (Luminar/UEG). Ela escutou e compreendeu o anseio das vítimas, dos profissionais envolvidos na contenção e das instituições mobilizadas em torno do desastre.

Coordenadora do Luminav, a professora Geórgia Cynara diz que Camargo produziu um trabalho rigoroso de observação participante, com entrevistas sonoras e audiovisuais, coleta documental e reflexão crítica. “Telma construiu um campo de interlocução sensível”, afirma.

A antropóloga reuniu experiências marcadas por dor, estigma, luta por reconhecimento e reivindicação de direitos. Arquivou isso em fitas K7, fotografias, relatos institucionais e transcrições de disquetes, bem como programas de rádio e TV e documentos de campo. De acordo com Cynara, “trata-se de um conjunto documental de inestimável valor histórico”.

Capa de single da banda punk ‘Señores’ – Foto: Divulgação

Música

Além do audiovisual, o drama causado pelo Césio-137 se faz ouvir na música local. A banda punk HC-137, fundada em 1988, protesta contra o poder público por meio de composições que tecem crítica social ao flagelo e à desinformação a respeito do acidente.

Um sentimento parecido é manifestado no som furioso, estilo Ramones, dos Señores. Na música “Pedro Chernobyl”, a banda se insurge: “aqui é a Chernobyl do centro do Brasil”. “Neto do Césio 137/ Filho da miséria mais crua e brutal”, revoltam-se os músicos goianos.

Sobre a composição, lançada em 2018, os punks declararam: “Nossa função é não deixar esquecer, é trazer à tona as lembranças, ainda que dolorosas, para as gerações que cresceram após o maior acidente radioativo da América Latina.” Paz entre nós, guerra aos Señores. 


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