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Wagner Moura ameaça figurões de Hollywood com Globo de Ouro

Redação Online

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 21:33 | Atualizado há 6 meses

Wagner Moura sorri ao pôr as mãos no cobiçado troféu dourado que o levou aos holofotes do audiovisual mundial
Wagner Moura sorri ao pôr as mãos no cobiçado troféu dourado que o levou aos holofotes do audiovisual mundial

Marcus Vinícius Beck

Ao pôr as mãos no troféu dourado em Los Angeles (EUA), neste domingo (11/1), o artista baiano Wagner Moura chegou ao esplendor. Durante a 83ª cerimônia do Globo de Ouro, ele recebeu o inédito prêmio de melhor ator de drama pela sua atuação em “O Agente Secreto”.

Como num sonho feliz, Moura, sorrindo, apanhou o Golden Globe. Sem crer, embora ali estivesse, agradeceu ao evento e aos seus colegas, “que são todos atores extraordinários”. “Obrigado à Neon, ao meu time, um obrigado especial a Kleber Mendonça Filho”, disse.

Entre pausas cadenciadas e aplausos da plateia (Oscar Isaac, de “Frankenstein”, não pareceu estar satisfeito), o soteropolitano enalteceu Mendonça Filho — “você é um gênio, irmão” — e analisou “O Agente Secreto”, do qual é protagonista e com o qual se projeta forte ao Oscar.

Segundo Moura, o thriller político versa sobre “memória, ou a falta de memória, e trauma geracional”. “Eu acho que se o trauma pode ser passado de geração em geração, valores também podem”, reiterou, em inglês, agradecendo à esposa, aos filhos e à vida com eles.

Não é a primeira vez que o brasileiro concorre ao Globo de Ouro. O ator esteve, em 2016, a um passo da vitória ao ser indicado por sua interpretação na série “Narcos”, em que viveu o narcotraficante colombiano Pablo Escobar. Mas perdeu para Jon Hamm, de “Mad Men”.

Desde então, o baiano se estabeleceu em Hollywood. Por “Guerra Civil”, no qual interpreta um jornalista da Reuters, Moura subiu mais um degrau em sua carreira gringa, tornando-se conhecido entre críticos, diretores e estúdios americanos — tanto que mora em Los Angeles.

Percurso

Ainda fez “Ladrão de Drogas”, produção televisiva sobre o tráfico de drogas. Devido ao papel, disputou o último Globo de Ouro também na ala de TV, mas perdeu-o para Owen Cooper, o ator coadjuvante de “Adolescente”. Tudo bem, vida que segue — e assim foi.

Tendo agora as mãos cheias, Wagner Moura deve ser um nome fornido para o Oscar. A lista com os indicados será divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no próximo dia 22. Para a The Hollywood Reporter, Moura “ameaça” os favoritos Timothée Chalamet (“Marty Supreme”) e Leonardo DiCaprio (“Uma Batalha Após a Outra”).

Em todo caso, tomando como base sua coletiva de imprensa, o brasileiro sensibilizou os votantes do Oscar, que são profissionais da indústria — isto é, americanos e britânicos. “A ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira”, declarou a jornalistas.

Além disso, Moura explicou a política brasileira. “Aconteceu há apenas 50 anos [a ditadura]. Tivemos, de 2018 a 2022, um presidente de extrema-direita/fascista no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura militar”, disse o ator, no hotel Beverly Hills.

Usuários dizem que filme recebeu dinheiro da Rouanet

Cineasta Kleber Mendonça Filho ao lado da produtora Emilie Lesclaux – Foto: Vitrine Filmes/ Divulgação

Embora a noite do domingo (12/1) tenha sido de alegria com a vitória de “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, uma mentira correu as redes sociais: filme teria recebido cifra milionária da Lei Rouanet. Usuários divulgaram nesta segunda-feira (12/1) essa fake news, sem atentar-se, todavia, ao detalhe de que a Rouanet não se aplica a longa-metragem.

Para filmar seu thriller político, Kleber Mendonça Filho precisou de R$ 27 milhões. Essa quantia, em sua maioria, foi captada por investimento estrangeiro, com R$ 14 milhões oriundos de França, Alemanha e Holanda — coprodutores da obra premiada nos EUA.

Conforme o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), órgão ligado à Ancine, R$ 7,5 milhões acabaram liberados em um edital aprovado em 2023. A iniciativa privada, por sua vez, colocou R$ 5,5 milhões no projeto, fechando o valor necessário para rodar a obra.

Mais de mil empregos diretos foram gerados, de acordo com informação divulgada assim que os créditos sobem ao fim de “O Agente Secreto”. Relatório da Oxford Economics mostra que o audiovisual criou mais de 600 mil empregos no país, movimentando R$ 70 bilhões.

Ator Udo Kier atua em “O Agente Secreto” – Foto: Victor Jucá

Largada

Se “Uma Batalha Após a Outra” é candidato certo ao Oscar (faturou quatro Globos de Ouro), “O Agente Secreto” larga à frente de “Foi Apenas Um Acidente”, de Jafar Panahi, e “Valor Sentimental”, de Joachim Trier. A campanha avança quentíssima nos próximos dias.

No Globo de Ouro, a película brasileira foi eleita a melhor de língua não inglesa. Sob a direção de Kleber Mendonça Filho, o longa-metragem brigou ainda para conquistar filme de drama, cujo prêmio acabou sendo direcionado a “Hamnet”, da cineasta chinesa Chloé Zhao.

A despeito do hipotético revés, a noite terminou histórica para o cinema brasileiro. Jamais uma produção nacional saiu-se vitoriosa em duas categorias no Golden Globes ou levou para casa a láurea de atuação dramática. De qualquer ângulo, trata-se de algo histórico.

Foi a terceira vez que um filme brasileiro ganhou melhor filme de língua não inglesa. Antes de “O Agente Secreto”, o Brasil vencera em 1999, com “Central do Brasil”, de Walter Salles, e em 1960, com “Orfeu Negro”, de Marcel Camus — este, porém, era ítalo-franco-brasileiro.

Fernanda Torres (trailer acima), essa querida do público, venceu o Globo de Ouro no ano passado de melhor atriz dramática. Tal e qual Wagner Moura, que carregou nos bolsos de seu terno um santinho com o rosto da atriz, a brasileira fez história em Hollywood — virou hit.

Após a condecoração, Mendonça Filho disse a jornalistas que, há cerca de dez anos, o Brasil sofrera uma “guinada bem drástica à direita”. Segundo ele, todavia, esses tempos se foram. Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Para o pernambucano, o ex-presidente foi “epicamente irresponsável” ao não liderar o País. “Realmente acho que o cinema pode ser uma forma de expressar algumas insatisfações que temos em termos de sociedade”, afirmou, dirigindo-se aos jovens cineastas e pedindo que retratem o que se passa na sociedade em que vivem. “É uma boa época para se expressar.”

Eletrizante e pirracento, “O Agente Secreto” é, para evocar Rogério Sganzerla, “um filme de cinema”. O cineasta atinge, com o festejado longa-metragem, sua maturidade artística, sendo politicamente necessário e cinematograficamente erudito: tudo isso ao som de Waldick Soriano, Zé Ramalho e Angela Maria, mestres sagrados da música brasileira. 


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