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Copa do Mundo 2026: Crônica de um fiasco anunciado

Redação Online

Publicado em 7 de julho de 2026 às 15:47 | Atualizado há 1 hora

CBF reconhece erros de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo - Foto: Rafael Ribeiro/ CBF
CBF reconhece erros de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo - Foto: Rafael Ribeiro/ CBF

Marcus Vinícius Beck

Leio o craque. Tostão diz que o mata-mata da Copa metaforiza a glória e o fracasso, o êxtase e o desespero, a vida e a morte. “Quem perde morre e depois renasce para a próxima Copa”, escreve o cronista no jornal “Folha de S. Paulo”. Encaremos a crônica do fiasco anunciado.

Faltam poucos minutos para o apito inicial. Estou preocupado, enjoado. No Centro, dobro uma esquina e desço rumo à Rua do Lazer. Muvuca receosa. Puxo a cadeira, sentando-me diante do telão montado na via. Centenas de torcedores de verde e amarelo, alguns de azul.

Penso na tela “O Grito”, do artista norueguês Edvard Munch. Pintada em 1893, a obra expressionista mostra a angústia e o desalento humanos. O céu ali é ondulado e as cores, distorcidas — um urro atravessando a natureza. Recobro a consciência, bebendo cerveja.

Inicia-se a partida. Para o nosso espanto, o time brasileiro dispensa a bola. Não faz jus à sua história, construída em meio a passes envolventes e jogadas rápidas. Neste domingo (5), no entanto, somos uma equipe comum, recuada e sem criação. Nada daquele saudoso Brasil.

Segundo a FIFA, a Seleção registra 34% de posse de bola contra os vikings. O time canarinho conclui 298 passes, enquanto os nórdicos consumam 627. Talvez esse número se explique pela qualidade do camisa 10 Martin Odegaard, o regente da meiuca norueguesa.

Carlo Ancelotti arriscou um diagnóstico. “Obviamente temos que pensar no futuro”, disse o técnico italiano, após a partida. “É bastante evidente, principalmente no meio-campo, que precisamos de jogadores de alto nível mais jovens. Mas hoje temos que cuidar da tristeza.”

Gabriel Magalhães disputa espaço com Erling Haaland: duelo duro – Foto: FIFA

Heróis e vilões

Nas derrotas, os vilões são procurados. Escolhas produzem consequências, como em todas as áreas da vida. Ancelotti, por exemplo, selecionou mal os jogadores, escancarando um meio-campo despovoado. Além disso, a lista tinha apenas um lateral-direito de ofício.

Um planejamento que se prova falho. O meio conta com Casemiro, Fabinho, Bruno Guimarães, Danilo Santos e Lucas Paquetá. Ederson, da Atalanta (ITA), foi chamado após corte do lateral Wesley. Uma deficiência acabou corrigida, mas outra logo apareceria.

Quando Paquetá se machucara, revelou-se uma carência: ninguém dentre os selecionados possuía as características do meia do Flamengo. Ancelotti, franzindo a sobrancelha, sabia do problema. A solução, pensou, era recorrer ao improviso: Gabriel Martinelli como meia.

Bem, vamos lá. Antes da contenda — que se pretendia dura —, imagina-se o inverso: um Brasil imponente diante de uma seleção menor e sem história. Ocorre o contrário: nada de magia. O jogo deixa de ser alegre, leve, longe da ousadia que se espera. É o precipício.

Apostamos no contra-ataque. Assim, a Seleção criou três ou quatro chances de gol. Todas desperdiçadas. O roteiro, um tanto trágico, começou a ser redigido cedo: Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti. Igualou-se a Zico, o craque que errara contra a França em 1986.

Quem deveria bater o pênalti? Tema dominou conversas

Bruno Guimarães, meio-campista, desperdiça cobrança – Foto: FIFA/ Divulgação

Um assunto monopoliza a mesa: quem bate pênalti na Argentina? Messi. E na Inglaterra? Harry Kane. E na França? Mbappé. E na Noruega? O nosso carrasco, Haaland. Apenas no Brasil, constata-se, o craque do time não chuta a penalidade. Faltou Vini Jr. se impor mais.

Inevitável não pensar no homem-gol, caro Jorge Ben Jor. Um jogador que subisse, descesse, corresse, chutasse, abrisse espaço. Vibrasse e agradecesse. Está em extinção, esse craque. É, meu velho, a cidade toda está vazia nessa tarde de domingo. Mais 45 minutos pela frente.

Na etapa final, projeto a melhora da Seleção. Não vem. Ancelotti, quando exigido, mexe muito mal. Ao tirar o ponta-direita Rayan e colocar Neymar, o italiano perde força defensiva e, de quebra, o contra-ataque fica lento. A Noruega, então pouco incisiva, acha os espaços.

Dali veio o cruzamento de Schjelderup para o gol de Haaland. Endrick, no lugar de Matheus Cunha, é deslocado para a direita, mas o jovem atacante brasileiro prefere atuar enfiado na área adversária. Basta uma mudança equivocada, só uma, para prejudicar ataque e defesa.

Ørjan Nyland evita gol de Vini Jr.: arqueiro foi destaque da partida – Foto: FIFA

Os erros

Minutos antes, a joia brasileira recebeu um passe de Vini Jr. Diante do goleiro, em um lance rápido, o atacante tomou a decisão que se mostrou ineficaz. Perdeu. Agora Haaland, letal, leva o Brasil a sofrer outra vez, marcando de fora da área. Já Neymar, de pênalti, desconta.

Aliás, o que pretende fazer esse herói nada macunaímico? Eu tento entender, juro que tento, por que o camisa 10 acha uma boa ideia bater boca com o goleiro norueguês perdendo de 2 a 0. Não consegui. “Agora acabou. Comecei aqui, fechei aqui”, diz. Será mesmo, Neymar?

É a crônica de uma tragédia anunciada. Sem um finalizador nato, como vencer? Sem um bom lateral, como atacar? Sem um meia, como ter a bola? Os gênios, diz o jornalista PVC no livro “Escola Brasileira de Futebol”, tomam decisões inesperadas, forçadas pelo improviso.

No Brasil, afirma o estudioso, é algo que se aprende na rua, na praia, no terreno baldio, na fazenda ou na floresta. “Talvez num platô, como Garrincha, ou num campinho sem grama, como Pelé”, escreve o pesquisador. Não se rejeita jamais a nossa cultura, o nosso jogo.


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