Brasileiros admitem culpa em caso que motivou sanções dos EUA por ligação com o PCC
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 3 de julho de 2026 às 09:02 | Atualizado há 59 minutos
Documentos da Justiça dos EUA mostram confissões de acusados em investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional | Foto: Divulgação/PF
O processo judicial que deu origem à sanção do governo dos Estados Unidos contra dois brasileiros acusados de manter conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital), em um tribunal com sede em Miami, na Flórida, teve admissões de culpa dos seis acusados, segundo documentos judiciais e informações do Departamento de Justiça americano.
Um dos réus, o brasileiro Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, 30, afirmou que fez depósitos bancários nas contas de Victor Henrique de Oliveira Shimada, 41, e de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, 34. Os dois tornaram-se os primeiros alvos de sanções americanas após a designação do PCC e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, em maio.
Cinco brasileiros que estavam morando de forma irregular em Orlando, na Flórida, trabalhavam como intermediários de dinheiro, assim como um cidadão americano, segundo a acusação. A função do grupo seria, em resumo, receber dinheiro em espécie e coordenar depósitos bancários em contas abertas em ao menos 12 cidades americanas.
Na denúncia apresentada por promotores, são citadas Miami e Pensacola, na Flórida; Rochester, em Nova York; Chicago, em Illinois; Cleveland, em Ohio; Atlanta, na Geórgia; Minneapolis, em Minnesota; Los Angeles, na Califórnia; Denver, em Colorado; Seattle, no estado de Washington; Houston, no Texas; e Kansas City, no Kansas.
Confissões e investigação
Barbosa admitiu que trabalhou como intermediário de pagamentos em dinheiro, em um esquema que tinha a intenção de ocultar a origem dos valores obtidos com tráfico internacional de drogas, conforme a acusação. Ele disse que também fez pagamentos a outros dois brasileiros, que hoje estão presos nos EUA.
A reportagem acessou documentos do processo em que o grupo responde por conspiração para lavagem de dinheiro, inclusive a denúncia, mas não encontrou menção à facção criminosa PCC.
Uma nota à imprensa publicada pelo Departamento de Justiça americano em 24 de junho, que informa que houve confissão dos seis acusados e dá detalhes do caso, também não mencionou o PCC.
A suspeita de que Shimada tem relações com a facção paulista serviram de justificativa para as sanções com base duas ordens executivas do governo americano: a 14059, voltada ao combate à produção e proliferação de drogas, e a 13224, que mira pessoas ou organizações consideradas terroristas e seus apoiadores.
O Tesouro americano afirmou, em nota, que o brasileiro sancionado atuava como principal elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais.
Shimada é considerado por procuradores do Ministério Público de São Paulo um prestador de serviço de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas do PCC, mas não um integrante da hierarquia da facção.
A defesa dele afirma que ainda não tem conhecimento das acusações que foram feitas nos Estados Unidos, e que um advogado deve ser contratado no país para acessar o processo e apresentar esclarecimentos.
Diz também que ele nega categoricamente qualquer acusação de envolvimento com organizações criminosas e que ele permanece protegido pela presunção de inocência, uma vez que o único processo em que há condenação contra ele ainda está em fase de recurso.
A reportagem não identificou quem representa as defesas de Stella Oliveira e Tadeu Barbosa.
Receitas ilícitas
A denúncia assinada por promotores federais diz que Shimada e Stella — conhecidos pelos apelidos de Japa e Lara Croft — “facilitaram o movimento e a lavagem de receitas ilícitas”, incluindo o fornecimento de drogas. O responsável pelo tráfico de drogas seria o mexicano Manuel Garcia-Urrea.
Os documentos do processo ao qual a reportagem teve acesso não informam qual era a droga vendida por Garcia-Urrea. Uma reportagem do jornal Miami Herald, publicada em janeiro, afirma que ele é traficante de cocaína.
As provas do esquema estariam em mensagens no aplicativo de mensagens WhatsApp, na análise de informações bancárias e no depoimento de testemunhas.
Num documento em que admite participação no esquema, Tadeu Barbosa afirma que recebeu dinheiro em espécie nas cidades de Charlotte e Greensboro, na Carolina do Norte, e em Pensacola, na Flórida, em setembro de 2023.
Ele admite ter lavado pessoalmente US$ 388 mil, enquanto o valor total do esquema seria de aproximadamente US$ 30 milhões (quase R$ 156 milhões).
“Tadeu Sebastiane Alves Barbosa foi um dos transportadores que recebeu o dinheiro em espécie proveniente de atividades ilegais para que o dinheiro pudesse ser depositado em caixas eletrônicos em todo o país em contas bancárias abertas em Miami e outros lugares, em um esforço para ocultar a natureza e a origem dos fundos”, diz trecho de um documento assinado pelo réu e por promotores, e que faz parte de um acordo firmado entre as partes em que ele admite culpa.
Julgamento será em agosto
A sexta e última admissão de culpa no caso ocorreu no dia 23 de junho, segundo o Departamento de Justiça. O tribunal já havia aceitado outras cinco admissões de culpa, inclusive a de Barbosa, no início de junho.
Uma audiência de julgamento está marcada para o dia 20 de agosto. (Isabella Menon/Tulio Kruse/FOLHAPRESS)