Paquistão e Afeganistão trocam bombardeios e deixam quase 300 mortos
Léo Carvalho
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 15:38 | Atualizado há 5 meses
Ataques mútuos deixaram quase 300 mortos, segundo autoridades dos dois países | Foto: AP/Saifullah Zahir
O Paquistão e o Afeganistão trocaram ataques e bombardeios nesta quinta-feira (26). O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, declarou “guerra aberta” contra o Talibã, que governa o Afeganistão.
A Força Aérea paquistanesa bombardeou Cabul e Kandahar como retaliação a ataques na fronteira entre os dois países. “Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês”, escreveu Asif nas redes sociais.
Os ataques mútuos deixaram quase 300 mortos, segundo informações divulgadas pelas autoridades. Ahmed Sharif Chaudhry, porta-voz das Forças Armadas do Paquistão, afirmou nesta sexta-feira (27) que 274 combatentes talibãs foram mortos e 22 alvos militares destruídos. Segundo ele, ao menos 12 soldados paquistaneses morreram.
Vidas ceifadas
Do lado afegão, o porta-voz Zabihullah Mujahid declarou que 55 soldados paquistaneses foram mortos e 19 postos tomados. Ele afirmou ainda que 8 combatentes talibãs morreram e 11 ficaram feridos, além de 13 civis feridos na província de Nangarhar.
O governo do Paquistão afirma que as ações foram resposta a ataques realizados por combatentes islâmicos que atuariam a partir de bases em território afegão. Cabul nega oferecer refúgio a esses grupos.
Após os bombardeios contra Cabul, Kandahar e outras províncias, Mujahid declarou que o Afeganistão realizou operações de represália em grande escala contra posições paquistanesas. Nesta sexta-feira, ele afirmou que o país busca resolver o conflito por meio do diálogo.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, declarou que as forças paquistanesas “têm plena capacidade para esmagar quaisquer ambições agressivas” do Afeganistão. O ministro do Interior, Mohsin Naqvi, classificou os ataques como “resposta apropriada”.
Ação e reação
Mosharraf Zaidi, porta-voz do governo paquistanês, afirmou que os contra-ataques continuam e descreveu a ação como resposta a “ataques afegãos não provocados”.
A agência Reuters informou que sirenes de ambulâncias foram ouvidas após fortes explosões em Cabul. Vídeos divulgados por autoridades paquistanesas mostram disparos ao longo da fronteira e o som de artilharia pesada. Outro registro mostra um prédio em chamas que, segundo Islamabad, seria um quartel-general do Talibã em Paktia.
A Rússia, único país que reconhece formalmente o governo do Talibã, pediu negociação entre as partes. China, Turquia e Arábia Saudita também estariam tentando mediar o conflito.
O Irã, que faz fronteira com ambos, ofereceu-se para ajudar, segundo comunicado oficial. A iniciativa ocorre enquanto Teerã mantém negociações com os Estados Unidos sobre seu programa nuclear.
O alto comissário de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, Volker Türk, pediu diálogo em vez do uso da força.
Os dois países mantiveram relações cordiais por anos, mas enfrentam confrontos esporádicos desde que o Talibã retomou o controle de Cabul, em 2021.
Armas nucleares x guerrilheiros
O Paquistão possui armas nucleares e capacidade militar superior à do Afeganistão. O Talibã, por sua vez, tem experiência em guerra de guerrilha após décadas de combate contra forças lideradas pelos Estados Unidos.
A crise está ligada ao grupo TTP, facção acusada por Islamabad de realizar ataques no Waziristão. O grupo busca impor a lei islâmica no Paquistão e transformar o país em uma teocracia. A região do Waziristão é apontada como refúgio de grupos islâmicos que atuam nos dois lados da fronteira.
As relações bilaterais se deterioraram nos últimos meses. As passagens terrestres permanecem em grande parte fechadas desde confrontos em outubro que deixaram mais de 70 mortos.
Um cessar-fogo inicial mediado pelo Qatar e pela Turquia foi seguido por rodadas de negociações, mas não houve acordo duradouro até o momento.