Opinião Pública

Roma e ortodoxia: A unidade que desejamos e a fé que não podemos negociar

Redação Online

Publicado em 24 de setembro de 2026 às 14:59 | Atualizado há 1 hora

Por Fabiano Lima

Reflexão ortodoxa sobre as recentes palavras de Sua Santidade Bartolomeu, Patriarca Ecumênico de Constantinopla

As recentes palavras de Sua Santidade Bartolomeu, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, sobre a desejada restauração da plena comunhão entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja de Roma precisam ser recebidas com serenidade, fidelidade à história e, sobretudo, sem os exageros que frequentemente contaminam tanto os entusiastas do ecumenismo quanto aqueles que, no extremo oposto, enxergam em qualquer diálogo uma capitulação da Ortodoxia.

Sou ortodoxo e desejo sinceramente que chegue o dia em que Oriente e Ocidente possam novamente participar do mesmo Cálice. Não considero a separação entre Roma e a Ortodoxia uma situação ideal que devamos simplesmente conservar. Uma ferida de quase mil anos no Corpo de Cristo não pode ser motivo de orgulho para ninguém. O próprio Patriarca Bartolomeu fala da ruptura da comunhão como algo doloroso e manifesta claramente a esperança de que seja restaurada a plena comunhão com a Igreja de Roma. Em Budapeste, em 4 de setembro de 2026, afirmou que espera, pela graça e pelo auxílio divinos, a restauração dessa plena comunhão, para que a antiga Pentarquia possa novamente encontrar sua harmonia.

Portanto, seria intelectualmente desonesto tentar transformar as palavras do Patriarca em uma simples defesa de relações diplomáticas mais amigáveis entre Roma e Constantinopla. Bartolomeu está falando de algo muito mais profundo. Ele está falando de comunhão eclesial. Está falando da cura da ruptura entre Oriente e Ocidente.

Mas exatamente porque essa comunhão é algo tão profundo, ela não pode ser confundida com submissão.

A questão fundamental: que espécie de unidade?

Toda a discussão começa aí.

Quando um ortodoxo afirma desejar a unidade com Roma, isso não significa que esteja aceitando antecipadamente que a estrutura eclesiológica desenvolvida pela Igreja Latina durante o segundo milênio deva simplesmente ser estendida sobre as Igrejas Ortodoxas. Também não significa aceitar que o Bispo de Roma se transforme no superior hierárquico imediato de todos os bispos ortodoxos.

Não significa que Constantinopla, Alexandria, Antioquia, Jerusalém, Moscou, Sérvia, Romênia, Bulgária, Geórgia e as demais Igrejas autocéfalas passem a constituir circunscrições subordinadas a uma jurisdição papal universal. E não significa que os desenvolvimentos doutrinais ocorridos unilateralmente no Ocidente durante os séculos de separação devam simplesmente ser impostos ao Oriente como condição para que sejamos considerados plenamente Igreja. Nada disso está nas palavras de Bartolomeu.

Pelo contrário. O Patriarca foi extraordinariamente claro ao dizer qual é o paradigma que considera legítimo para a restauração da unidade: a experiência da Igreja indivisa do primeiro milênio. Essa afirmação possui consequências enormes.

O primeiro milênio não é uma lembrança romântica: é o critério

Bartolomeu recorda uma conhecida formulação de Joseph Ratzinger, muito antes de este se tornar Bento XVI: Roma não poderia exigir do Oriente, a respeito da doutrina da primazia, mais do que aquilo que havia sido formulado e vivido durante o primeiro milênio.

Essa frase não resolve por si mesma todas as divergências entre católicos e ortodoxos. Mas estabelece um princípio extraordinariamente importante. Houve aproximadamente mil anos em que Roma e Constantinopla estiveram em comunhão sacramental sem que existisse entre elas o modelo de jurisdição universal que posteriormente se consolidou no Ocidente. E é exatamente para essa experiência que devemos olhar.

O Documento de Chieti, elaborado conjuntamente por representantes católicos e ortodoxos em 2016, reconhece que, entre os séculos IV e VII, consolidou-se uma taxis, uma ordem das cinco grandes sedes patriarcais: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Roma ocupava o primeiro lugar e exercia uma primazia de honra. O mesmo documento reconhece que a interpretação especificamente ocidental que vinculou progressivamente essa primazia a determinadas prerrogativas do sucessor de Pedro não foi recebida da mesma maneira pelo Oriente.

É precisamente aqui que a leitura ortodoxa precisa ser firme. Nós não temos dificuldade em reconhecer que Roma ocupava o primeiro lugar na antiga ordem das Igrejas. Não precisamos negar a grandeza histórica da Igreja de Roma. Não precisamos diminuir São Pedro para engrandecer Santo André.

Não precisamos negar o papel extraordinário que Roma exerceu na história da Igreja antiga. Podemos reconhecer ao Bispo de Roma uma verdadeira primazia. A pergunta é outra: que primazia?

Primazia não significa monarquia eclesiástica

Bartolomeu responde de maneira muito clara. Recorrendo à expressão de seu predecessor, o Patriarca Atenágoras, ele apresenta o Bispo de Roma como aquele que preside no amor. E define a compreensão ortodoxa da primazia romana como uma primazia de serviço exercida dentro, e nunca acima, da comunhão das Igrejas irmãs.

Essa frase talvez seja a mais importante de toda a sua intervenção.

“Dentro da comunhão. Nunca acima dela.”

Essa é a fronteira eclesiológica.

Há lugar para um protos, um primeiro.

Há lugar para uma presidência.

Há lugar para uma primazia universal exercida como serviço de unidade, desde que sua natureza e suas competências sejam definidas sinodalmente. Mas não há lugar para transformar esse primeiro em uma autoridade que exista juridicamente acima da comunhão episcopal e que possa governar todas as Igrejas locais mediante uma jurisdição própria, ordinária, imediata e universal.

Esse ponto não é uma caricatura ortodoxa do catolicismo. A diferença pode ser constatada comparando diretamente a formulação de Bartolomeu com o direito canônico latino vigente. O cânon 331 do Código de Direito Canônico afirma que o Romano Pontífice possui na Igreja um poder ordinário supremo, pleno, imediato e universal que pode exercer livremente; o cânon 333 acrescenta uma primazia de poder ordinário sobre todas as Igrejas particulares.

Bartolomeu, por sua vez, afirma precisamente que títulos ou concepções que impliquem uma jurisdição universal e não mediada se acomodam com dificuldade à eclesiologia das Igrejas irmãs. Há aqui uma divergência real. Ocultá-la não favoreceria o ecumenismo. Apenas produziria uma unidade aparente.

A Pentarquia e a restauração da antiga ordem

O Patriarca vai ainda mais longe. Ele não apenas fala genericamente do primeiro milênio. Recoloca no centro a instituição da Pentarquia.

Roma. Constantinopla. Alexandria. Antioquia. Jerusalém.

Para Bartolomeu, essa ordem representou, durante o primeiro milênio, uma das manifestações mais visíveis da unidade da Igreja universal. Os patriarcas presidiam suas próprias Igrejas e, ao mesmo tempo, permaneciam unidos pela mesma fé e pelo mesmo Cálice. Roma ocupava o primeiro lugar nessa ordem.

Não estava fora dela.

Não estava acima dela.

Era a primeira dentro dela.

Daí a expressão tradicional: primus inter pares, primeiro entre iguais.

É nesse contexto que deve ser compreendida a satisfação de Bartolomeu com a restauração, no Annuario Pontificio de 2024, do antigo título papal de Patriarca do Ocidente. Para o Patriarca, esse título faz sentido precisamente porque insere Roma novamente numa linguagem eclesiológica compatível com a antiga ordem pentárquica. Isso é muito diferente de dizer que Roma deixa de possuir qualquer papel universal.

A posição ortodoxa séria não precisa reduzir o Bispo de Roma a uma espécie de presidente honorário sem função alguma. Um verdadeiro protos possui responsabilidades. Pode convocar, coordenar, representar a comunhão, favorecer soluções, servir de ponto de referência para a unidade.

O próprio princípio ortodoxo de sinodalidade pressupõe uma relação entre o primeiro e os demais bispos. Bartolomeu já recordou em outros contextos o princípio do Cânon Apostólico 34: os bispos não devem realizar aquilo que diz respeito a todos sem o seu primeiro, e o primeiro também não deve agir sem eles. É exatamente essa reciprocidade que distingue a primazia sinodal de uma monarquia eclesiástica.

Portanto, uma futura restauração da Pentarquia não significaria ausência de primazia romana. Significaria a recuperação de uma primazia cuja existência não destrua a sinodalidade.

Isso não apagaria as Igrejas Ortodoxas atuais

Também é necessário evitar outro equívoco.

Falar em restauração da Pentarquia não significa que as Igrejas autocéfalas que surgiram posteriormente seriam abolidas e toda a Ortodoxia seria administrativamente reduzida aos quatro patriarcados orientais antigos mais Roma. O próprio Bartolomeu reconhece que, depois da ruptura com Roma, outros patriarcados e Igrejas autocéfalas foram integrados à estrutura canônica ortodoxa, estrutura que ele considera legítima.

Portanto, parece mais correto compreender a restauração da Pentarquia de que fala o Patriarca como a recuperação de uma estrutura histórica fundamental da comunhão universal, dentro de uma realidade eclesial que hoje é naturalmente mais complexa.

O desafio será determinar de que maneira a primazia de Roma, a precedência de Constantinopla no Oriente, os antigos patriarcados e as demais Igrejas autocéfalas poderão coexistir numa ordem verdadeiramente sinodal. Esse problema ainda não está resolvido. Mas a solução não poderá ser simplesmente a absorção da Ortodoxia pela estrutura administrativa latina.

União não é absorção

Sobre isso existe um precedente ecumênico importantíssimo. O Documento de Balamand de 1993, resultado do diálogo oficial católico-ortodoxo, rejeitou o chamado uniatismo como método para alcançar a unidade.

O princípio é significativo: a unidade procurada entre católicos e ortodoxos não deve ocorrer por absorção de uma Igreja pela outra nem pela conversão institucional de comunidades ortodoxas em estruturas submetidas a Roma. O texto chega a falar de uma comunhão que não seja absorção nem fusão, mas encontro na verdade e no amor. Isso coincide profundamente com aquilo que entendo como uma união cristã autêntica.

Não quero que Roma deixe de ser Roma. Também não aceito que, para que haja unidade, Constantinopla tenha de deixar de ser Constantinopla. Não quero helenizar o Ocidente, como se a unidade exigisse que Roma assumisse formas culturais gregas ou, em sentido mais amplo, formas litúrgicas e espirituais próprias do Oriente. Do mesmo modo, não aceito a latinização do Oriente como preço da comunhão. A verdadeira unidade não pode transformar vencedores em senhores e vencidos em tolerados. Ela precisa restaurar a comunhão das Igrejas.

A experiência de Florença deve servir de advertência

A história já demonstrou a fragilidade de uniões construídas de cima para baixo. O Concílio de Ferrara-Florença, entre 1438 e 1439, produziu formalmente uma união entre gregos e latinos. Foram discutidos o Filioque, o purgatório, a primazia papal e outras questões. Mas aquela união não foi recebida pelo corpo da Igreja Ortodoxa.

O próprio Documento de Alexandria, produzido conjuntamente por católicos e ortodoxos em 2023, reconhece que os representantes gregos assinaram sob a pressão das circunstâncias políticas e que a união posteriormente não foi recebida pela Igreja grega, sendo formalmente rejeitada em Constantinopla em 1484.

Essa experiência nos ensina alguma coisa essencial.

Não basta que alguns teólogos cheguem a um acordo.

Não basta que alguns bispos assinem um documento.

Não basta que Roma e Constantinopla publiquem uma declaração conjunta.

Uma verdadeira restauração da comunhão precisa ser eclesialmente recebida.

Precisa haver unidade de fé.

Precisa haver recepção sinodal.

Precisa haver reconhecimento das Igrejas.

E, finalmente, precisa haver um Cálice comum que seja expressão de uma fé realmente comum, não de uma ambiguidade diplomática cuidadosamente negociada.

A fé não pode ser o preço da unidade

Aqui está provavelmente o ponto mais delicado. Desejar a unidade não significa aceitar que todas as diferenças dogmáticas sejam irrelevantes. Se assim fosse, o diálogo teológico seria desnecessário. Não é.

Em 2024, o diálogo oficial católico-ortodoxo iniciou trabalhos especificamente sobre o Filioque e sobre a infalibilidade. Em junho de 2026, a Comissão Internacional Mista informou que o texto dedicado à infalibilidade ainda precisava de revisão e esclarecimentos antes de poder ser submetido à sessão plenária.

Isso demonstra uma realidade que precisa ser dita com tranquilidade: a união ainda não existe porque questões importantes ainda não foram resolvidas. E não devem ser resolvidas simplesmente exigindo que o Oriente adote todas as formulações produzidas unilateralmente no Ocidente durante o segundo milênio.

Como ortodoxo, não posso aceitar que a restauração da comunhão signifique simplesmente subscrever uma doutrina de jurisdição papal universal nos moldes que historicamente se consolidaram no Ocidente.

Não posso aceitar que a consciência sinodal da Igreja seja substituída por uma eclesiologia em que um único bispo seja concebido como fonte jurídica imediata da autoridade de todas as Igrejas.

Não posso aceitar que a fé guardada pelos Padres, pelos Concílios Ecumênicos e pela tradição litúrgica da Igreja seja relativizada em nome da eficiência institucional.

E não creio que Bartolomeu esteja pedindo isso.

Pelo contrário, ele afirma que os antigos Patriarcados do Oriente continuam sendo pilares da Tradição Apostólica e possuem a responsabilidade de testemunhar a continuidade histórica da fé ortodoxa.

Isso não significa rejeitar tudo o que nasceu no Ocidente

Mas também precisamos evitar o erro contrário.

Ser ortodoxo não exige considerar todo desenvolvimento teológico latino automaticamente falso.

A história cristã é mais complexa.

Existem diferenças de linguagem.

Existem distintas escolas teológicas.

Existem formulações que podem ser complementares.

Existem problemas que surgiram mais da separação histórica e da incompreensão mútua do que de uma oposição absoluta de fé.

Por isso precisamos estudar.

É justamente aqui que nossas reflexões anteriores sobre São Gregório Palamas são úteis.

A Ortodoxia não preserva a tradição transformando o passado num museu. Ela preserva a fé vivendo-a.

A tradição patrística não significa imobilidade intelectual. Significa continuidade.

Assim como a teologia de Palamas aprofundou a linguagem da participação do homem na vida divina sem abandonar a fé anterior, também podemos admitir desenvolvimento teológico — desde que esse desenvolvimento permaneça organicamente ligado à experiência da Igreja e não contradiga aquilo que foi recebido. O problema, portanto, não é simplesmente que Roma tenha desenvolvido sua teologia depois do primeiro milênio.

A questão é saber quais desses desenvolvimentos podem ser compreendidos como legítimas expressões da mesma fé e quais introduzem concepções incompatíveis com a eclesiologia e a tradição recebidas pela Ortodoxia. Esse trabalho precisa ser feito com os Padres sobre a mesa, com os Concílios diante de nós e sem slogans de nenhum dos lados.

Roma também parece perceber que alguma coisa precisa ser repensada

É justo reconhecer algo importante.

O movimento não ocorre apenas do lado ortodoxo.

Em 2024, o Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos publicou o documento de estudo The Bishop of Rome, que reuniu décadas de diálogo ecumênico sobre primazia e sinodalidade.

Entre as propostas discutidas estão uma releitura ou interpretação oficial das formulações do Vaticano I, uma distinção mais clara entre o ministério do Papa como Patriarca do Ocidente e uma eventual função primacial a serviço da comunhão universal e uma ampliação da sinodalidade dentro da própria Igreja Católica.

Isso não significa que Roma tenha abandonado as formulações do Vaticano I.

Não abandonou.

O cânon 331 continua existindo.

Mas significa que dentro da própria Igreja Católica existe hoje uma discussão séria sobre como compreender e exercer o primado de uma maneira compatível com uma eclesiologia de comunhão.

Isso deve ser reconhecido pelos ortodoxos.

A fraternidade exige que saibamos identificar aproximações reais quando elas acontecem.

O que podemos esperar de uma futura plena comunhão?

Se um dia, pela graça de Deus, a comunhão for restaurada, não creio que veremos uma Igreja Ortodoxa transformada em uma espécie de rito oriental de uma estrutura latina mundial.

E espero que jamais seja isso.

Também não imagino uma Igreja em que Roma seja simplesmente ignorada como se mil anos de precedência não tivessem existido.

O horizonte indicado por Bartolomeu é mais profundo.

Roma voltaria à plena comunhão com o Oriente ortodoxo.

O Bispo de Roma recuperaria sua primeira posição na antiga taxis.

A Pentarquia recuperaria sua integridade simbólica e eclesiológica.

O Papa poderia exercer um verdadeiro ministério de primazia e de serviço à unidade universal.

Mas esse ministério teria de existir dentro da sinodalidade da Igreja e não acima dela.

Os patriarcas continuariam verdadeiros patriarcas.

Os bispos continuariam verdadeiros bispos de suas Igrejas, não delegados administrativos de uma autoridade central.

As Igrejas autocéfalas conservariam sua vida própria.

As tradições litúrgicas, espirituais e teológicas do Oriente não seriam concessões toleradas por Roma, mas expressões legítimas da catolicidade da Igreja, isto é, da plenitude da Igreja universal.

Questões universais exigiriam verdadeiro discernimento universal.

E aquilo que diz respeito a todos não poderia ser decidido unilateralmente por um só.

Essa é, a meu ver, a consequência lógica da fórmula de Bartolomeu: primazia dentro da comunhão, nunca acima dela.

Não queremos vencer Roma

Talvez a coisa mais importante seja esclarecer o espírito com que essa posição deve ser defendida. Eu não desejo a derrota da Igreja Católica Romana. Não desejo assistir a um Papa humilhado. Não desejo que os católicos sejam obrigados a renunciar à sua história para serem recebidos entre nós.

Seria contraditório condenar um modelo de submissão para depois desejar impô-lo ao outro lado. Os romanos são nossos irmãos. Compartilhamos muito mais do que frequentemente lembramos: a fé trinitária, a divindade e humanidade de Cristo, a sucessão apostólica, o episcopado, o sacerdócio, a Eucaristia, a vida sacramental, a veneração dos santos, a especialíssima honra à Santíssima Mãe de Deus e séculos de uma mesma herança patrística.

Não somos estranhos tentando fabricar artificialmente uma religião comum. Somos cristãos separados que carregam uma história comum anterior à separação. É justamente por isso que a unidade é possível. Mas é também por isso que ela precisa ser verdadeira.

Uma unidade sem vencedores e vencidos

O dia em que Roma e a Ortodoxia puderem novamente compartilhar o mesmo Cálice não deverá ser celebrado como vitória de Roma sobre Constantinopla nem como vitória de Constantinopla sobre Roma. Deverá ser a vitória da Igreja sobre a divisão. Para isso, será preciso que todos aprendamos algo.

Nós, ortodoxos, precisaremos reconhecer sem receio que primazia e sinodalidade não são inimigas. A existência de um primeiro é parte da própria tradição canônica da Igreja. Roma, por sua vez, precisará enfrentar seriamente a diferença entre ser o primeiro na comunhão das Igrejas e possuir uma jurisdição ordinária imediata sobre todas elas. E ambos precisaremos voltar continuamente à Igreja indivisa.

Não para fingir que onze séculos de história posterior nunca aconteceram, mas para encontrar naquela experiência comum o critério pelo qual os desenvolvimentos posteriores deverão ser avaliados. O Documento de Alexandria afirma justamente que o primeiro milênio oferece orientação preciosa para uma nova aplicação da relação entre primazia e sinodalidade no presente. Essa me parece ser a direção correta.

O limite ortodoxo

Portanto, posso desejar profundamente a restauração da plena comunhão com Roma sem abrir mão da minha consciência ortodoxa. Posso chamar os católicos de irmãos sem aceitar todas as formulações romanas.

Posso reconhecer a Sé de Roma como primeira na antiga ordem da Igreja sem aceitar que o Papa possua jurisdição monárquica sobre cada Igreja Ortodoxa.

Posso aceitar um primado verdadeiro sem aceitar supremacia.

Posso desejar a Pentarquia sem desejar centralização.

Posso desejar unidade sem desejar absorção.

Posso desejar reconciliação sem negociar a fé.

Na verdade, uma unidade obtida mediante renúncia à verdade não seria unidade cristã.

Seria apenas um acordo institucional.

Conclusão: voltar à comunhão sem abandonar a Ortodoxia

Foi precisamente isso que considerei mais significativo nas palavras recentes de Bartolomeu.

Ele não disse que Roma não importa.

Disse exatamente o contrário.

Roma faz falta.

A comunhão que historicamente se exprimiu na Pentarquia permanece ferida enquanto a Igreja de Roma permanecer separada da plena comunhão com o Oriente ortodoxo. O Patriarca deseja que ela volte. Mas a Roma para a qual ele aponta é a Roma inserida na comunhão das Igrejas, a Roma do primeiro milênio, a Roma que preside no amor, a Roma que ocupa o primeiro lugar sem transformar sua primazia em uma jurisdição exercida acima das demais Igrejas.

Esse é um horizonte com o qual um cristão ortodoxo pode dialogar seriamente.

E talvez seja justamente aí que esteja a possibilidade real de uma futura unidade.

Não retroceder simplesmente a 1054.

Não fingir que os últimos mil anos não existiram.

Mas recuperar os princípios eclesiológicos que permitiram a Oriente e Ocidente permanecerem durante tantos séculos na mesma Igreja: fé apostólica, sucessão episcopal, Eucaristia, sinodalidade, primazia, conciliaridade e comunhão entre Igrejas verdadeiramente irmãs.

Que Roma ocupe novamente o primeiro lugar entre os antigos tronos não me assusta.

O que não podemos aceitar é que primeiro passe a significar senhor sobre todos. O primeiro, no Evangelho, é aquele que serve.

A primazia cristã só pode ser compreendida dessa maneira.

E aqui está, talvez, a síntese de tudo:

Queremos novamente Roma conosco, mas não acima de nós.

Queremos o Bispo de Roma exercendo seu ministério na comunhão da Igreja, não substituindo a Igreja.

Queremos novamente a antiga harmonia da Pentarquia, enriquecida pela realidade das Igrejas Ortodoxas que a história posteriormente fez florescer.

Queremos o mesmo Cálice.

Mas queremos chegar a ele confessando a mesma fé — não silenciando as diferenças para produzir artificialmente uma aparência de unidade.

Se algum dia a comunhão for restaurada dessa maneira, não teremos uma Igreja conquistando outra. Teremos algo infinitamente maior: a cura de uma ferida milenar e a restauração, na verdade e no amor, da comunhão entre o Oriente e o Ocidente cristãos.

Goiânia, GO 23 de setembro de 2026.

Fabiano Lima Dias é Advogado, Católico Ortodoxo Antioquino Membro da Paróquia São Nicolau de Goiânia/GO

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