Política

Novo Progresso, reduto de Bolsonaro, tem eleição esvaziada

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 26 de setembro de 2026 às 12:28 | Atualizado há 2 horas

Novo Progresso, no sul do Pará, registra pouca mobilização política a poucas semanas do primeiro turno das eleições | Foto: Danilo Verpa/Folhapress
Novo Progresso, no sul do Pará, registra pouca mobilização política a poucas semanas do primeiro turno das eleições | Foto: Danilo Verpa/Folhapress

A poucas semanas do primeiro turno das eleições, Novo Progresso, no sul do Pará, vivia dias de tranquilidade. Era quase como se não existisse uma disputa eleitoral em curso, o que soava estranho na cidade mais bolsonarista da Amazônia.

Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve no município 79,6% dos votos no primeiro turno, a maior proporção em toda a região. No segundo turno, foram 82,92% dos votos válidos.

Investigação sobre atos golpistas

A movimentação nos gabinetes ligados ao Judiciário em Brasília, a 1.700 km de distância, ajuda a explicar a desmobilização da direita nas ruas de Novo Progresso. Após uma investigação sigilosa da PF (Polícia Federal), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou ao STF (Supremo Tribunal Federal) nove pessoas suspeitas de terem participado de atos golpistas na cidade e nas imediações logo após a derrota de Bolsonaro. A denúncia do PGR é do último dia 24 de agosto.

A economia de Novo Progresso gira em torno de garimpos de ouro, exploração de madeira, gado e soja atividades que, boa parte das vezes, são exploradas na ilegalidade.

Os atos golpistas nessa parte da Amazônia brasileira, que funciona como um corredor da soja e da grilagem em razão da BR-163, foram uns dos mais violentos no país.

A BR-163 foi bloqueada por uma semana, com participação de empresários locais e das frotas e funcionários dessas companhias. Policiais rodoviários federais e viaturas foram atacados com pedras. Tiros foram disparados por manifestantes, irresignados com a vitória de Lula (PT).

Todos os carros usados pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) para tentar desbloquear a rodovia foram apedrejados, segundo informação da polícia naquela primeira semana de novembro de 2022. Três viaturas foram perfuradas por balas.

O MPF (Ministério Público Federal) afirmou, no curso das investigações, que houve tentativa de homicídio contra os policiais e que o ato tinha como finalidade um golpe de Estado. O caso, então, foi remetido à PGR, por conexão com a investigação principal sobre a tentativa de golpe. Nesse processo, Jair Bolsonaro foi o condenado pelo STF à maior pena, 27 anos e três meses de prisão.

No caso dos acusados de golpismo que viviam em Novo Progresso, a PGR apontou os crimes de associação criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito. Não há individualização de quem apedrejou e atirou contra a polícia.

Direita sem mobilização nas ruas

Políticos bolsonaristas do município dizem que essa investigação é um dos fatores que justificam a eleição “parada” na região, sem mobilização relevante e aparente em torno do nome de Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair e candidato à Presidência.

Participantes dos atos golpistas chegaram a ser presos pela PF. Empresários foram multados no curso de ações conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em razão da insistência no bloqueio da rodovia uma lista com nomes e multas circulou na cidade.

“Aqui está tudo parado”, afirma o vereador Pedro de Vargas (União Brasil), que organizou um adesivaço de carros a favor de um deputado federal bolsonarista que tenta a reeleição. Outro fator que explica esse esvaziamento, segundo o parlamentar, é o apoio do prefeito ao grupo político do ex-governador Helder Barbalho (MDB), apoiador de Lula.

Os rostos de Flávio e do pai apareciam em adesivos e camisetas dos poucos cabos eleitorais presentes no ato. Poucos carros foram adesivados. Foi um dos raros momentos em que o nome de Flávio se fez presente na cidade um mês antes da eleição.

Denunciados deixaram a cidade

Entre os nove denunciados pela PGR, a desmobilização é mais evidente. A maior parte se desfez de imóveis, pequenos negócios e deixou a cidade. Quem permaneceu desconhecia a existência da denúncia da PGR, até a abordagem pela reportagem da Folha para tratar do assunto.

Essas pessoas se dizem distantes da disputa eleitoral em 2026, embora reafirmem a rejeição a Lula e a preferência pela direita mais especificamente pela família Bolsonaro.

“Eles pegaram pessoas aleatórias”, afirma Carlos Henrique Ferreira, 40, um dos denunciados pela PGR.

Ele trabalha numa retífica de motores em Novo Progresso, de propriedade do tio, e tem a defesa custeada pelo parente. “A polícia agiu em cima do povo e o povo se revoltou. Cheguei lá bem na hora que as viaturas estavam saindo.”

Carlos foi filmado nos atos, conforme a denúncia da PGR. “A região de Novo Progresso está sendo muito atacada”, afirma ele, em referência ao governo Lula e à maior fiscalização contra ilícitos na derrubada da floresta. “Aqui é um lugar de mata, as pessoas trabalham com madeira e garimpo, e elas não estão conseguindo trabalhar direito.”

No governo Bolsonaro, Novo Progresso, de 37 mil habitantes, figurou na lista de municípios com maior desmatamento da amazônia.

Outro denunciado permanece no município

Jeferson Paulo Milioni é outro denunciado pela PGR que permanece na cidade. A empresa que o empregava, do ramo agropecuário, também custeia sua defesa. Pouco depois de ser preso pela PF, ele montou uma pizzaria. “Eu não estaria lá nos atos e bloqueios da BR-163 se já tivesse a pizzaria na época.”

Segundo Jeferson, não havia paixão política envolvida nos atos ele diz que nem se lembra se votou em 2022. “Era só para estar no meio da bagunça.”

Vídeos mostram que ele se uniu a outros manifestantes para bloquear a rodovia, conforme a denúncia da PGR.

Sobre a disputa eleitoral neste ano, Jeferson afirma que ainda não decidiu seu voto. “O governo Bolsonaro deixava o povo daqui trabalhar. E o governo Lula não é bom para nossa região, que vive de madeira e garimpo.”

Apoio a Flávio aparece de forma discreta

Ao contrário de 2018, quando Bolsonaro foi eleito, e de 2022, quando tentou a reeleição, não há ações ostensivas de demonstração de apoio a Flávio nas ruas e nas fazendas, como a reportagem constatou em diferentes pontos ao longo da BR-163 em Mato Grosso e no Pará. Isso não significa que o senador terá menos votos que o pai, dada a consolidação do bolsonarismo na região.

Em algumas propriedades rurais, a opção é por bandeiras do Brasil nos portões. Claudiney Pereira, 59, que planta soja e milho e cria gado na região de Novo Mundo (MT), foi além: colocou uma bandeira dos Estados Unidos, comprada pela internet, ao lado da bandeira do Brasil.

“Botei essa bandeira dos EUA para tirar mau olhado dos petistas”, diz o produtor, que votará em Flávio. “E é pelo patriotismo que o povo americano tem. Apoio o que Donald Trump presidente dos EUA faz: derrotar a esquerda.” (Vinicius Sassine/Danilo Verpa/FOLHAPRESS)


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