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Luísa Sonza chega ao topo das paradas de sucesso com disco de bossa nova

Redação

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 20:02 | Atualizado há 5 meses

Cantora gaúcha ressurge como intérprete em disco em que canta clássicos
Cantora gaúcha ressurge como intérprete em disco em que canta clássicos

Marcus Vinícius Beck

Faz bossa, bossa sempre nova, entre Luísa Sonza e Roberto Menescal. De vez em quando, como num doce samba de verão, a música alcança decibéis mansinhos, soprando um amor metálico — é o saxofone fonfonando aquela alegria que, para uns e outros, soa indolente.

No tocador digital, o violão resulta notório no conjunto sonoro completado pela voz ciciante, criando um bloco, uma entidade unívoca. Perpetua-se o conceito de João Gilberto, aqueles dois timbres ali, o da voz humana e o das cordas percussivas. Requer ouvido dedicado.

Havia quem sambasse muito bem, havia até mesmo quem sambasse por ver os outros sambar, mas João não sambaria para copiar alguém — sambaria porque tinha vontade. Como escreveu o biógrafo e musicólogo Zuza Homem de Mello, essa entidade “volátil e magistralmente bem proporcionada” faz sussurrar o moderno universo joãogilbertiniano.

De forma orgânica, “Bossa Sempre Nova” (Sony) foi gravado em 2025. Sonza, cujo hit “Chico” fez o Brasil debater o que era bossa nova, esteve tête-à-tête com os instrumentistas nos estúdios. Quase sem cortes ou edição, o material a revela confortável ao interpretar, com leveza e segurança, um punhado de canções conhecidas e outras nem tão famosas assim.

Mostra-se direta, mais suave e, sobretudo, menos áspera — como, aliás, postula o estilo inventado por João Gilberto. Dentre as faixas pinçadas por Sonza e Menescal, a inédita “Um Pouco de Mim” traz frescor ao gênero que arrebatou Frank Sinatra e Miles Davis nos anos 1960: “E pra falar a verdade/ Bem que eu queria não quer/ Mas o amor me deixa à vontade.”

Sonza é, conforme suas palavras, uma “rata da bossa” desde 2022. Seja aqui ou no Japão, a artista não se cansa de garimpar lojas de vinil. Quando em casa, é vigiada nas audições por Menescal e Tom Jobim, os dois felinos que dividem o lar com ela e quatro cachorros.

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Parceria

Desde que conheceu a jovem cantora, o Menescal humano foi o maior entusiasta desse mergulho nos registros em disco da bossa nova. Há dois anos, após um show de Paula Toller, ambos se encontraram no camarim. O violonista lhe disse que gostara de “Chico”, aconselhando-a a tentar um salto ainda mais fundo nesse mar sereno e nessas ondas calmas.

Lá foi Sonza: estudar música. De início, a cantora e o produtor Douglas Moda, com quem trabalha desde seu segundo disco, “Doce 22”, de 2021, pensaram em gravar uma “sessions live” tendo Menescal como ilustre convidado. Não declinaram da ideia, mas observaram que, na verdade, os encontros seriam um disco — turbinado pela participação de Toquinho.

Tão logo se inicia, Sonza e Toquinho releem o afro-samba “Consolação”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell, canção desconcertante da dupla. A “elástica plataforma” da bossa nova, segundo o crítico musical Tárik de Souza, aloja as composições na tradição religiosa.

Para o estudioso, autor do livro “João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova” (L&PM), o estilo modernista foi um “movimento espontâneo de músicos extraordinários, João à frente, que resolveram abrir comportas estruturais para procedimentos de vanguarda da MPB da época”. Na obra, Tárik acrescenta ainda a tese de que o gênero é diverso e plural.

‘Bossa Sempre Nova’ reúne pérolas da música

Luísa Sonza e o violonista Roberto Menescal flertam em disco –

“Bossa Sempre Nova” avança nas pérolas. O resultado, querendo ou não, surpreende: aquela beleza viniciana, aquela métrica lírica, aquela poesia e amor, tudo isso surge no disco. Toquinho dedilha acordes e notas em “Anda Você”, parceria de Vinícius com Hermano Silva lançada em 1953. Ao fim, “Só Tinha de Ser Com Você”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira.

Esta última faixa, por sinal, está em “Elis & Tom”. Lançado em 1974, o elepê alimenta o galanteio entre Sonza e Toniquinho com a inolvidável “Águas de Março” e sua promessa de vida no coração. Segundo o violonista, a música foi escolhida por ele para que entendesse o tom da cantora, tarefa desempenhada com sucesso — os dois se dão muito bem, obrigado.

Embora houvesse ali um evidente match, Sonza tem em Menescal seu conforto artístico. Até parcerias rolaram entre os dois: “Um Pouco de Mim”, escrita durante temporada em Los Angeles, nos Estados Unidos, estava pronta para o quarto disco de carreira, “LS4”.

Eis que o produtor Douglas Moda, homem atento, vaticinou: que tal, Luísa, se essa faixa fosse à cappella? A artista aceitou e, sem enrolar, mandou-a para Menescal por áudio. O experiente músico, prontamente, deu um trato harmônico, ajustou o formato e colocou seu violão ali.

Talvez a maior surpresa, em “Bossa Sempre Nova”, seja “Diz que fui por aí”, samba de Zé Keti e Hortêncio Rocha gravado por Nara Leão em seu primeiro disco, em 1964. O desejo inicial de evitar os clássicos, para o deleite do ouvinte, não se concretizou — “Samba de verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, e “Triste”, de Jobim, estão na obra.

Com Menescal (guitarra, violão e voz) e grupo (baixo, bateria, piano e sopros), a produção findou-se em São Paulo. No repertório, quatro faixas da dupla Menescal e Ronaldo Bôscoli: “O barquinho”, “Você”, “Ah, se eu pudesse” e “Nós e o mar”. Aprecie.


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